A madrugada do último domingo ficará marcada na vida de Patrik Machado. Aos 29 anos, ele foi brutalmente agredido por três homens enquanto voltava para casa, no Centro de Tubarão. Violência motivada pela homofobia. “Algumas pessoas passaram próximo, na hora da agressão, e não ajudaram. Pensei que não conseguiria escapar”, disse ele, em entrevista exclusiva ao DS.
Patrik voltava para casa a pé, sozinho, após sair de uma boate, por volta das 4h, quando foi insultado pelo trio. “Já tinha feito esse mesmo caminho outras vezes, até no mesmo horário, e nunca tinha acontecido nada. Dessa vez, quando estava próximo da esquina das avenidas Expedicionário José Pedro Coelho e Padre Geraldo Spettmann, três garotos passaram por mim a pé e me xingaram de ‘viado’. Eu retruquei e eles continuaram os insultos e me ameaçaram. Foi quando corri e notei que eles estavam me seguindo”, explica.
Patrik conta que correu para a esquina da avenida José Acácio Moreira com a travessa Miguel Souza Reis, onde chegou a se esconder dentro de um lixo. “Pedi ajuda em um estabelecimento que fica ali, mas eles não abriram a porta. Pulei em uma lata de lixo, tentando me esconder, mas os garotos me viram entrando nela. Resolvi sair e enfrentá-los. Foi quando iniciaram as agressões”, relata.
“Eles começaram a dar socos e eu caí no chão. Eles continuaram batendo em mim, na cabeça, no rosto. Em determinado momento, eles notaram que existia restos de entulho de uma obra e começaram a jogar pedras. Foram sete, oito pedradas. Uma atingiu o braço, outra a orelha. Um deles chegou a pegar uma pedra grande, parecia um paralelepípedo. Eu já estava muito tonto e achei que ia morrer”, conta Patrick.
Agressores fugiram com a chegada da PM
Segundo Patrik Machado, as agressões só pararam porque o trio teria avistado uma viatura da Polícia Militar. “Não sei se eles chegaram a ver a viatura ou somente as luzes do giroflex, mas saíram correndo, em direção ao terminal rodoviário, e me deixaram ali no chão. Foi quando levantei e andei novamente até a esquina onde tinha visto eles pela primeira vez e avistei o carro da PM. Me ajoelhei na rua e pedi ajuda”.
A PM prestou os primeiros atendimentos e acionou o Corpo de Bombeiros. Patrik foi encaminhado ao hospital logo em seguida e depois foi liberado. “Eu senti a raiva deles em cada agressão. Não sei se estavam alcoolizados ou sob influência de drogas. Já tinha sofrido preconceito outras vezes, mas nunca agressão física assim. Foi tudo muito rápido, entre o momento dos xingamentos e os ataques. Achei que não fosse sobreviver. Nunca tive medo, porque nunca tinha acontecido comigo. Mas, agora, não vou mais sair à noite assim, sozinho, dessa mesma maneira”, explica a vítima.
Além das agressões, falta de ajuda também fez vítima se sentir mal
Patrik trabalha atualmente como recepcionista no Hospital Nossa Senhora da Conceição e como arrecadador na CCR ViaCosteira. “Sou gay, minha família sabe e me respeita, meus amigos também. Não escondo aquilo que sou. Sei que não devia ter retrucado nesse caso, mas é algo meu, de me defender e também defender as pessoas que enfrentam alguma injustiça. Além de me sentir mal pelas agressões, algumas pessoas passaram próximo, viram tudo e não ajudaram. Não dá para achar normal a gente ver uma pessoa sendo agredida e não tentar ajudar”, conta Patrik.
A criminalização da homofobia e da transfobia foi permitida pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em decisão de junho de 2019, quando os ministros consideraram que atos preconceituosos contra homossexuais e transexuais passariam a ser enquadrados no crime de racismo. A pena é de um a três anos de reclusão. Na tarde de ontem, Patrik foi até a Polícia Civil para prestar mais esclarecimentos sobre o caso e para fazer o exame de corpo de delito. “Eu estou bem emocionalmente, mas acho que a ficha ainda não caiu. Sinto muitas dores pelo corpo e, às vezes, ainda parece mentira o que aconteceu. Muita gente não acredita que a homofobia existe e que isso pode matar. É uma realidade, infelizmente. Se a polícia não aparecesse naquele exato momento, talvez eu nem estivesse mais aqui”.
Guilherme Corrêa