Marcos Favero/Arquivo Um levantamento feito pela reportagem do DS aponta que a região de Tubarão teve 80 presos políticos identificados durante a ditadura militar. O número tem como base um relatório do coletivo catarinense Memória, Verdade e Justiça, que integra o acervo sobre a ditadura em Santa Catarina. A maioria dos casos ocorreu em 1964, logo após o golpe que completou 55 anos neste domingo.
Grande parte das prisões era ilegal. Considerados pelo regime pessoas subversivas, comunistas ou terroristas, os presos eram submetidos a longos interrogatórios, ameaças e, muitas vezes, a torturas. Entre os alvos estão trabalhadores portuários, estivadores, políticos, e até um vigário.
A lista de presos das cidades da Amurel é mais extensa em Imbituba, que tinha um movimento sindical combativo durante os anos 60. Foram identificadas 34 prisões políticas de pessoas do município. Trabalhadores do porto e estivadores formam a maioria dos detidos. Também há um número considerável de membros do chamado “Grupo dos 11”, que eram pequenas células espalhadas pelo país e lideradas pelo governador gaúcho Leonel Brizola, em apoio ao presidente João Goulart.
Depois de Imbituba, Laguna é a cidade que teve mais presos políticos após o golpe de 64, com 24 registros. Além de também incluir portuários e estivadores, a relação conta com o ex-prefeito Francisco de Assis Soares, que ficou mais de 40 dias desaparecido, anos antes de se tornar chefe do Poder Executivo. Francisco Soares assumiu a prefeitura no começo da década de 70, mas voltou a ser perseguido pela ditadura e foi obrigado a se afastar do cargo. A lista de presos inclui ainda dois radialistas, um estudante, um bancário, um sapateiro, uma dentista e um vereador.
Já em Tubarão, o levantamento da reportagem revela 13 pessoas presas pela ditadura. Grande parte dos detidos eram trabalhadores filiados ao sindicato dos mineiros da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN). O vigário da cidade na época, Osni Carlos Rosenbrock, também figura como um dos presos. O religioso teria sido capturado com a alegação de que contribuía para a organização do sindicato de trabalhadores rurais. Assim como nas outras cidades, a maioria dos casos aconteceu entre 1964 e 1969.
Orleans e Treze de Maio, com três casos cada, Jaguaruna, com dois, e Capivari de Baixo, com um, completam a lista de cidades da região que tiveram presos políticos durante a ditadura militar, que durou até 1985, cometendo uma série de atrocidades.
Presos em Santa Catarina
Em Santa Catarina, o total de presos pelo regime soma 694 pessoas, ainda de acordo com o relatório do coletivo Memória, Verdade e Justiça. A relação completa traz, além dos nomes dos presos, informações como profissão e cidade de origem, o que possibilitou que a reportagem do DS levantasse quantos eram de municípios da região. Apesar de a lista não informar o local exato das prisões, os pesquisadores acreditam que a maioria delas ocorreu em solo catarinense, nas próprias cidades dos envolvidos.
Lista de mortos inclui jornalista que estudou no Colégio Dehon
Além dos presos políticos, três pessoas naturais da região estão entre os mortos e desaparecidos vítimas da ditadura militar, de acordo com a Comissão Nacional da Verdade: Rui Oswaldo Aguiar Pfutzenreuter, Divo Fernandes d’Oliveira e João Batista Rita.
Nascido em Orleans, Rui Pfutzenreuter era jornalista e atuava como dirigente do Partido Operário Revolucionário Trotskista. Antes de se mudar de Santa Catarina, estudou no Colégio Dehon, em Tubarão. Depois, cursou Jornalismo, em Porto Alegre. Em São Paulo, foi torturado e assassinado por agentes do Doi-Codi, aos 29 anos.
Já Divo Fernandes d’Oliveira era de Tubarão. Antigo militante do PCB, trabalhava como marinheiro e desapareceu no Rio de Janeiro, aos 69 anos. Ele teria sido preso durante um comício na Central do Brasil, em 1964, e levado ao presídio Lemos Brito. O corpo dele nunca foi encontrado.
Outro desaparecido é João Batista Rita, que nasceu em Braço do Norte. Ele se mudou com a família, ainda criança, para Criciúma. Foi viver mais tarde em Porto Alegre, começando lá a militância política. João Batista estava exilado na Argentina quando foi sequestrado e levado ao Rio de Janeiro nos anos 70. Foi visto pela última vez no Doi-Codi do Rio, na noite de 13 de janeiro de 1974.
Ao todo, Santa Catarina teve dez mortos ou desaparecidos confirmados no regime. O único caso em solo catarinense foi o do político Higino João Pio (PSD), vencedor da primeira eleição a prefeito de Balneário Camboriú, encontrado morto na Escola de Aprendizes Marinheiros, em Florianópolis, no dia 3 de março de 1969.
Dados disponíveis desde 2017
Os dados do acervo sobre a ditadura militar em Santa Catarina estão disponíveis para consulta junto ao Instituto de Documentação e Investigação em Ciências Humanas (IDCH) do Centro de Ciências Humanas e da Educação (Faed) da Udesc desde 2017.
A relação de presos políticos integra a Comissão Estadual da Verdade, e foi elaborada a partir de documentos do arquivo público do Departamento de Ordem Política e Social (Dops) do Paraná, processos da secretaria de Justiça do Estado e entrevistas pessoais. O documento pode ser acessado no site www.faed.udesc.br.
Guilherme Simon