Vocês já repararam como nós, cachorros, sabemos exatamente a hora em que alguma coisa está diferente?
Foi assim naquele final de tarde. Minha mãe pegou uma mala. Depois outra. Andou pela casa de um lado para o outro, me fez um carinho, disse que voltava logo e... desapareceu. Isso mesmo!
Simplesmente desapareceu!
No primeiro dia, achei que ela tivesse ido contar as histórias dos meus livros. No segundo, imaginei que estivesse passeando sem mim (o que já considero uma tremenda injustiça). No terceiro, comecei a desconfiar de que havia alguma coisa muito errada.
Eu fazia rondas pela casa. Ouvia qualquer barulho no corredor e corria para a porta. Cada chave girando na fechadura fazia meu coração disparar. Mas nunca era ela.
Tá certo que não posso reclamar. Minha vó cuidou de mim como sempre faz. A Márcia passeou comigo e me encheu de carinho. As crianças brincaram comigo. Fui alimentado, passei meus dias acompanhado e recebi muitos afagos.
Mas vocês, humanos, precisam entender uma coisa: um carinho não substitui outro.
Nós amamos toda a família, mas sempre existe aquele humano que escolhemos como porto seguro. Aquele cuja voz nos acalma, cujo cheiro reconhecemos de longe e que conseguimos identificar apenas pelo som dos passos.
Um belo dia, nem sei quanto tempo depois do sumiço de minha mãe, ouvi uma voz do outro lado da porta.
Nem esperei confirmar. Corri. Era ela! Finalmente!
Confesso que tentei manter a pose de cachorro maduro e equilibrado. Durou exatamente três segundos. Depois pulei, chorei, balancei o rabo com toda a força que um cachorro feliz consegue balançar e fui atrás dela pela casa inteira, só para ter certeza de que, desta vez, ela não iria sumir de novo.
Desde então, continuo seguindo minha mãe para todos os cômodos.
Quero deixar claro que não é falta de confiança. É apenas um pequeno protocolo de segurança.
Vai que ela resolve desaparecer outra vez...
Lambeijos e até a próxima! Eu vou continuar por aqui, bem grudadinho na minha mãe. Afinal, cachorro prevenido vale por dois!