Sábado, 18 de julho de 2026
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JOSÉ WARMUTH

03/07/2026 06:00

Falhas de comunicação

Como sempre, viajavam de carro.

É costume dizer que o automóvel é o segundo amor do homem. Para ele, era o primeiro. Só pensava nele e o subconsciente o traía na conversação.

Gostava de peruas com grandes airbags, de carrocerias elegantes, de molejo macio (sem duplo sentido). Assinava Quatro Rodas e fazia test drive em todos os modelos novos que apareciam.

Tinha uma queda especial por Mercedes e nenhuma atração pelo Picasso.

Aí pelo meio-dia ele falou:

— Querida, temos que abastecer. 

— O carro?

— Não, temos que comer alguma coisa e aproveitar para trocar o óleo. 

— E no posto tem motel?

— Não, trocar o óleo do carro.

Um ruído estranho se fez ouvir na suspensão.

— Foi aquele careca!

— Aquele homem calvo que calibrou o pneu?

— Não, aquele pneu careca que estava como estepe.

E seguiram estrada afora admirando a paisagem e as curiosas frases escritas nos para-choques dos caminhões, como na enorme jamanta de containers certamente pilotada por um caminhoneiro poeta:

“Nas curvas do teu corpo capotei meu coração”

E no malcheiroso caminhão de porcos com placa de Videira:

“Toalete a bordo”.

— Deixe de olhar para aquela mulher que vai aí adiante, falou ela.

— Eu estou admirando é o design do carro dela. É um cupê conversível. E, além disto, eu não estou batendo pino e nem precisando carregar a bateria. E mais ainda: ela está necessitando de uma recauchutagem e lanternagem para se tornar fisicamente atraente.

— A propósito, tenho observado que você anda meio de freio puxado e de farol baixo. Você já está queimando óleo? Precisa de algum aditivo para não ratear?

— Não, querido. Depois daquela cirurgia ginecológica que eu fiz, ainda estou com o motor amaciando.

 Toma!

Diário do Sul
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