Como sempre, viajavam de carro.
É costume dizer que o automóvel é o segundo amor do homem. Para ele, era o primeiro. Só pensava nele e o subconsciente o traía na conversação.
Gostava de peruas com grandes airbags, de carrocerias elegantes, de molejo macio (sem duplo sentido). Assinava Quatro Rodas e fazia test drive em todos os modelos novos que apareciam.
Tinha uma queda especial por Mercedes e nenhuma atração pelo Picasso.
Aí pelo meio-dia ele falou:
— Querida, temos que abastecer.
— O carro?
— Não, temos que comer alguma coisa e aproveitar para trocar o óleo.
— E no posto tem motel?
— Não, trocar o óleo do carro.
Um ruído estranho se fez ouvir na suspensão.
— Foi aquele careca!
— Aquele homem calvo que calibrou o pneu?
— Não, aquele pneu careca que estava como estepe.
E seguiram estrada afora admirando a paisagem e as curiosas frases escritas nos para-choques dos caminhões, como na enorme jamanta de containers certamente pilotada por um caminhoneiro poeta:
“Nas curvas do teu corpo capotei meu coração”
E no malcheiroso caminhão de porcos com placa de Videira:
“Toalete a bordo”.
— Deixe de olhar para aquela mulher que vai aí adiante, falou ela.
— Eu estou admirando é o design do carro dela. É um cupê conversível. E, além disto, eu não estou batendo pino e nem precisando carregar a bateria. E mais ainda: ela está necessitando de uma recauchutagem e lanternagem para se tornar fisicamente atraente.
— A propósito, tenho observado que você anda meio de freio puxado e de farol baixo. Você já está queimando óleo? Precisa de algum aditivo para não ratear?
— Não, querido. Depois daquela cirurgia ginecológica que eu fiz, ainda estou com o motor amaciando.
Toma!