Marina de Albuquerque
Jornalista
Essa noite eu sonhei que estava parindo um filho e eu mesma fiz o parto. Foi um sonho interessante. Eu estava acompanhada de uma amiga. Ela ficou apenas assistindo. Estávamos no centro de Florianópolis, em um mirante que tem vista para a ponte Hercílio Luz.
Realmente o nascimento do meu filho foi um acontecimento inusitado, ele estava previsto para o fim de janeiro e acabou estourando minha bolsa em dezembro. Lembro da sensação no sonho. Provavelmente, a lembrança corporal estava no meu subconsciente e há tempos não tinha sido resgatada. No sonho, a bolsa estourou e o bebê saiu deslizando, sem dores, e muito rápido, eu estava de pé e só deu tempo de agarrá-lo e trazê-lo ao meu colo. A questão que me veio na hora foi como eu iria cortar o cordão umbilical? Então, acordei, sem a resposta.
Meu unigênito nasceu sem hora marcada, de um jeito parecido. Lembro do medo que senti, mas também senti um empoderamento, ele nasceu naturalmente e de forma muito bonita, próximo à praia, quase dentro do mar. Porém, diferente do sonho, eu consegui chegar a tempo na casa onde eu morava, em um sítio chamado “Paraíso”, à beira-mar, em Jijoca de Jericoacoara, no Nordeste brasileiro, estado do Ceará.
Acredito que este sonho me trouxe à tona o estilo de vida que levo hoje. Faço meus afazeres profissionais do meu jeito, sem ajuda de ninguém e tenho que ter ânimo e motivação para continuar. De certa forma, é um cordão umbilical depender de serviços terceirizados, que, como escritora, me deparo sempre que finalizo um trabalho. Devo correr atrás de divulgação e editora para publicar meu próximo livro, dependo de eventos, plataformas e livrarias para colocar o livro que já está publicado à venda. Além disso, ter inspiração para escrever não deixa de ser uma espécie de parto.
O parto para mim nunca é doloroso, escrevo fluidamente, no entanto, divulgar, fazer propagandas e vendas é um tanto penoso para mim, pois me considero artista, escritora, mas não vendedora, comerciante e publicitária.
A exemplo de muitos artistas que conheço, sei que este dilema não é só meu, o interesse do artista é de se expressar, mostrar ao mundo o que têm em seu íntimo, queremos exercer este serviço de produção de conteúdo, e chegar, aos olhos, ouvidos e coração de quem assiste, lê ou escuta.