Fábio Ballmann
Professor e celebrante de casamentos
Sim, querido leitor e leitora, estou mais uma vez inventando moda com frases em latim. Por favor, paciência, porque essa tem uma história filosófica.
Nesse título nem temos a frase inteira, que seria “Amicus Plato, sed magis amica veritas”. A frase é atribuída a Aristóteles, um filósofo grego que morreu em 322 a.C. Traduzindo: “Platão é meu amigo, mas mais amiga é a verdade”. Com isso, nosso querido Ari está dizendo que admirava Platão, outro grande filósofo da época, de quem Aristóteles tinha sido aluno por quase vinte anos, mas que agora pensava diferente. Ou seja, Aristóteles começou a formular uma maneira de filosofar, de compreender o mundo que divergiu bastante da maneira como aprendeu enquanto aluno. Depois de muito refletir, discordou do seu mestre.
Traidor! Canalha! Ingrato! Calma, não é bem por aí. É preciso dizer que pensar diferente não foi uma rebeldia ou briga. O grande Ari era mesmo um “cabeção”! Investigar o mundo que o cercava era fascinante para ele. Conforme registrava suas observações, ele tinha mais e mais dificuldades para combinar suas descobertas e deduções com as teorias que havia tão bem aprendido, ao ponto de precisar divergir radicalmente.
O que conseguimos aprender com essa frase? Duas coisas. A primeira é que para discordar com fundamento é necessário conhecer. Vejamos, era ele “amigo de Platão”, não um conhecido. Aristóteles estudou muito as ideias de seu professor, tomando-as como verdadeiras até o momento em que, para ele, as evidências não combinavam com a teoria. Então, a coisa está menos para um “Belém, Belém, nunca mais estou de bem” e mais para “olha, gosto de você, mas aqui e aqui não está dando”. O respeito ao mestre permanece.
O segundo ensinamento é o desapego. Estamos acostumados a aplicar essa palavra às coisas materiais, porém, somos apegados também a pessoas e ideias. “Se fulano falou isso, deve estar certo” é o tipo de comportamento que nos dá até certa segurança, e até nos exime de alguns resultados. Todavia, se a verdade é mais amiga, é importante prestarmos atenção ao que está sendo dito e depois a quem está dizendo. É importante não nos deixarmos ir na onda apenas por conforto, insegurança ou preguiça. Não é feio mudar de opinião, feio é não fazê-lo por comodidade.
Vivemos tempos estranhos. A verdade fica menos evidente a cada instante, somos bombardeados com informação em todos os momentos e lugares. Às vezes, importa despegar. Com respeito, sempre, mas desapegar.