Por: Gustavo Otoboni Molina | Professor da área da saúde da UniSul
Nos últimos anos, o debate sobre inovação na saúde ganhou espaço no Brasil, desenvolvendo tecnologias e medicamentos. Mas há uma etapa menos visível, embora decisiva, para que um produto esteja disponível para a população: a regulamentação. Nesse ponto, a conexão entre universidade e mercado deixa de ser apenas desejável e passa a ser estratégica.
Na área da saúde, nenhum produto pode ser disponibilizado sem a análise e o licenciamento da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). O processo exige evidências técnicas consistentes, testes padronizados, documentação detalhada e conformidade com normas específicas. Quando essas etapas são mal planejadas ou executadas de forma fragmentada, o resultado costuma ser atraso, retrabalho e desperdício de recursos.
É aqui que a universidade pode fazer a diferença. Instituições de ensino e pesquisa reúnem infraestrutura, conhecimento acumulado e equipes qualificadas para estruturar estudos de forma metodologicamente rigorosa. Em saúde, isso significa desde análises laboratoriais até testes pré-clínicos e validações técnicas. Estruturas como clínicas-escola são ambientes propícios para isso. São locais controlados, auditáveis e alinhados às boas práticas exigidas pelos órgãos reguladores.
Convênios e cooperações técnico-científicas contribuem para o desenvolvimento de métodos de análise, atualização de parâmetros técnicos e discussão sobre produtos inovadores. Esse diálogo é fundamental em áreas emergentes, como terapias avançadas, biomateriais e produtos derivados de substâncias controladas para fins medicinais, que dependem de autorizações específicas para pesquisa.
Produtos de saúde mais bem testados significam mais segurança para pacientes. Processos regulatórios mais estruturados significam menos improviso. Ao mesmo tempo, a parceria com empresas também desafia a universidade a manter o equilíbrio entre agilidade e responsabilidade ética.
Se queremos soluções mais rápidas para problemas complexos em saúde, precisamos encurtar a distância entre quem pesquisa, quem produz e quem regula. E isso começa pelo reconhecimento de que ciência bem feita não é obstáculo ao desenvolvimento. É o caminho mais seguro para alcançá-lo.
Gustavo Otoboni Molina | Professor da área da saúde da UniSul