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A família em lata e o espelho do nosso tempo

Artigo

19/02/2026 06:00|Atualizada em 19/02/2026 15:25|Por Felipe Felisbino | Professor

O Carnaval costuma ser descrito como festa, espetáculo ou entretenimento. Mas ele revela algo maior: sua capacidade de interpretar o tempo histórico por meio da imagem. A ala “Família em Lata”, apresentada pela escola de samba de Niterói, foi um desses raros instantes em que o desfile ultrapassa o impacto visual e alcança densidade simbólica.

Integrantes desfilaram dentro de grandes latas coloridas, como produtos cuidadosamente embalados. Nos rótulos, a representação da família; na avenida, a metáfora em movimento. O público ri, fotografa, celebra, critica, mas a imagem permanece, provocando uma reflexão silenciosa depois que a música passa.

A alegoria sugere que, na contemporaneidade, não consumimos apenas objetos, consumimos modelos de vida. A família, tradicionalmente associada ao espaço da intimidade e do afeto, aparece transformada em produto cultural, pronta para exposição, validação e reprodução. Não é apenas vivida; é apresentada.

Vivemos um tempo em que experiências privadas se convertem em narrativas públicas. A felicidade precisa ser visível, a harmonia precisa ser comprovada, e a vida cotidiana passa a obedecer a uma estética de vitrine: a “foto conceito”, cenário que esconde a vida como ela é. É família em lata.

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A escolha da lata como símbolo não é casual. Ela preserva, mas também limita; conserva ao mesmo tempo em que padroniza. Aquilo que é enlatado perde espontaneidade, deixa de ser natural, para ganhar aparência estável e duração prolongada. A alegoria sugere uma tensão própria do nosso tempo: o esforço de conservar referências afetivas em uma sociedade acelerada que transforma experiências humanas em formatos replicáveis, obedecendo a modelos.

O Carnaval compreende intuitivamente aquilo que especialistas explicam de forma complexa: a modernidade amplia possibilidades enquanto cria novos enquadramentos. Nunca houve tanta liberdade para definir modos de vida, mas também nunca existiram tantos modelos prontos indicando como devemos parecer felizes, algo entre experiência real e performance social.

Ao se mostrar, a alegoria causa desconforto, embora, em alguma medida, já estejamos organizando nossas vidas para caber em embalagens simbólicas socialmente aceitáveis. É nesse ponto que o Carnaval revela sua inteligência cultural. Sob o brilho das fantasias e o pulsar da bateria, ele continua sendo uma forma popular de pensamento, uma filosofia em movimento que traduz contradições sociais em imagens compreensíveis a todos.

Os desfiles não apenas celebram o Brasil; eles o interpretam. Entre homenagens culturais, memórias ancestrais e críticas sociais sutis, o samba segue narrando o país com uma linguagem que combina emoção, estética e reflexão, interrogando o presente, que não oferece respostas fáceis, mas devolve perguntas necessárias. Enquanto discursos formais tentam explicar a sociedade, a avenida a traduz em imagens. 

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