Quarta-feira, 22 de abril de 2026
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RENATA DAL-BÓ

22/04/2026 06:00

Quando a história encontra morada no leitor

Semana passada estive em algumas escolas celebrando o Dia Nacional do Livro Infantil — 18 de abril —, data escolhida em homenagem ao nascimento do pai da literatura infantil, Monteiro Lobato.

Em uma das visitas, a coordenadora perguntou às crianças quem era o personagem da história que seria contada. A resposta veio imediata, em coro, cheia de certeza: “É o Pingo!”.

Em seguida, ao perguntar o nome da autora, alguns sabiam, outros se entreolharam em busca de ajuda… e apenas dois ou três arriscaram a resposta.

Em outra escola, durante um bate-papo, perguntei: “Vocês sabem quem foi Monteiro Lobato?”. Poucas mãos se levantaram. Mas bastou eu mencionar o Sítio do Picapau Amarelo para que todas as mãos subissem ao mesmo tempo, como se uma memória coletiva tivesse sido despertada. E quando comecei a citar os personagens — Emília, a boneca falante; Narizinho, do nariz arrebitado; Dona Benta; Tia Nastácia —, a sala se encheu de vozes, lembranças e entusiasmo. Cada criança parecia conhecer aquele universo de um jeito muito próprio, como quem guarda uma história dentro de si.

Voltei para casa pensativa. Talvez a literatura tenha mesmo esse poder de nos atravessar mais do que nos nomear. 

As histórias chegam antes do autor, permanecem depois dele e seguem vivendo em quem as lê. E há algo de profundamente bonito nisso: são as obras que encontram caminhos de permanência, que se espalham, que criam raízes.

Lembrei então do ensaísta, semiólogo, crítico literário e filósofo francês Roland Barthes e sua teoria da “Morte do Autor”. Não como ausência, mas como transformação: a obra ganha autonomia, encontra seus leitores, respira por conta própria. O texto deixa de pertencer a quem escreve e passa a existir no encontro com quem lê.

Claro que há um desejo de ser lembrado. Mas, mais do que o nome, é a história que permanece. É ela que encontra morada, que faz sentido, que ganha novos olhos.

E é nesse instante — quando uma criança eterniza um personagem, se reconhece na narrativa e guarda consigo um pedaço daquela história —, que a literatura encontra seu lugar: continuar viva no coração e na memória do leitor.

Diário do Sul
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