Quarta-feira, 24 de junho de 2026
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Mudanças devido ao home office

12/01/2021 06:00

Desde março, a população teve que se adaptar a uma nova realidade. E isso não é diferente no mercado de trabalho, já que muitas empresas precisaram colocar seus colaboradores em home office.


Para o professor dos cursos de Psicologia e Ciências Aeronáuticas da Unisul, Anderson da Silveira, com a necessidade emergente de cuidados sanitários decorrentes da covid-19, muitos trabalhadores tiveram que alterar suas rotinas laborais para a prática do home office.


“Isso ocorreu sem um preparo prévio das organizações. A pandemia pegou todos de surpresa, não havendo tempo suficiente para o desenvolvimento de formações sobre como trabalhar em casa, por exemplo. Nesse sentido, dadas as condições de como ocorreu esta ‘migração’ do ambiente de trabalho nas empresas para o espaço doméstico, muitos pesquisadores do campo organizacional estão chamando esta modalidade de ‘home office compulsório’”, explica.


Segundo o docente, aos poucos as empresas e trabalhadores estão se adaptando à nova modalidade. “Claro que os desafios podem ser maiores ou menores, de acordo com cada segmento profissional”. Além disso, são muitas as mudanças em curso, conforme ele: “A forma de gerir o tempo, de organizar o processo de comunicação nas empresas, a forma de registrar as atividades realizadas pelos profissionais, o ritmo de trabalho etc.


A ocupação do espaço doméstico para a realização das atividades laborais exige o desenvolvimento de novas habilidades comportamentais do trabalhador, que devem ser mediadas pelas organizações. Sabe-se, a partir da realidade brasileira, que escolher um ambiente na casa que seja ergonomicamente adequado é algo que não está à disposição de muitas pessoas”, ressalta.


Nesse sentido, acrescenta Anderson, o profissional e a empresa devem buscar formas de equalizar essas necessidades, na busca de garantir a produtividade, mas também a saúde das pessoas.

 

Projeto nasce para ajudar trabalhadores

Com o advento da pandemia e a imposição do isolamento  social, independentemente de estarem preparadas, as empresas tiveram que remanejar suas equipes para o trabalho remoto.


Com isso, os estudantes do último ano do curso de Psicologia da Unisul Emília Reis Kraieski, Cibele Rigoni Lapolli e João Marcos Mazzini resolveram ajudar os trabalhadores que estavam com dificuldades de administrar as demandas de trabalho junto às demandas familiares e domésticas no mesmo ambiente.  


“Desta forma, surgiu a ideia de criar o Grupo de Orientação para Trabalhadores em Home Office, com o objetivo de desenvolver estratégias que promovam bem-estar no trabalho em home office a trabalhadores que estão nesta modalidade de atividade em virtude da pandemia da covid-19”, explica Cibele.  


Para dar andamento ao projeto e ajudar os trabalhadores, são formadas turmas de no máximo dez pessoas. Um total de cinco encontros síncronos semanais, de 1h30, são realizados, para que os participantes recebam orientações pertinentes para exercer a atividade profissional na própria casa, de forma organizada e produtiva e com foco no bem-estar.


“Os temas abordados nos encontros são conduzidos conforme a demanda dos participantes, mas, de maneira geral, são abordados aspectos de adaptação, planejamento, organização, produtividade, disciplina, adequação das necessidades pessoais e familiares, bem como aspectos ergonômicos e de autocuidado. Cada encontro é planejado conforme as dificuldades apresentadas pelos participantes”, relata Cibele.


Segundo a acadêmica, os participantes são trabalhadores que estão atuando na modalidade remota por imposição das normas sanitárias. A divulgação do projeto foi feita nas redes sociais e nos canais da Unisul, por meio de formulário eletrônico.

 

Trabalho remoto existe há mais de 40 anos

O trabalho remoto é uma modalidade que já existe há mais de 40 anos. Nesse período, explica o professor dos cursos de Psicologia e Ciências Aeronáuticas da Unisul, Anderson da Silveira, as pesquisas no âmbito organizacional indicam duas principais vantagens desta modalidade para o trabalhador: a flexibilização da jornada de trabalho e a economia do tempo despendido pelos trabalhadores no trânsito.


“É interessante perceber que durante a pandemia houve uma diminuição da poluição urbana decorrente do trânsito – impacto direto da menor circulação de veículos. Do ponto de vista das empresas, as vantagens estão na diminuição dos custos operacionais. Também é possível identificar, em alguns segmentos, o aumento da produtividade”, cita Anderson.


Segundo ele, é importante salientar que são constatações genéricas. “As organizações possuem dinâmicas muito singulares. Logo, o que pode ser uma vantagem para uma empresa pode ser uma desvantagem ou desafio para outra. Por exemplo, existem estudos indicando que o home office traz como vantagem ao trabalhador a flexibilidade da carga horária, ao mesmo tempo em que outras pesquisas indicam problemas relacionados à sobrecarga de trabalho e ao isolamento social dos profissionais. Em relação às empresas, a dificuldade de realizar a gestão das equipes é uma reclamação recorrente”, observa.


Para Anderson, caberá às organizações buscar meios de transformar os desafios atuais em oportunidades de qualificação de suas equipes. “Isso passa pela valorização das pessoas e do investimento em formação. No cenário atual, em que a tecnologia está ao alcance da maioria das empresas, não há dúvidas de que a vantagem competitiva está na qualificação das pessoas que formam seus quadros”, acrescenta o docente.

 

Desconfortos e medos

“A pandemia por si já desencadeou uma série de desconfortos, como medo de ser infectado, de perder o emprego, de não dar conta, entre outros fatores. Nos nossos grupos, têm surgido dificuldades relacionadas à produtividade, procrastinação, ansiedade, insônia, frustração, sensação de falta de controle e organização das questões familiares e de trabalho. Como o ‘escritório’ está em casa, o trabalhador se coloca o tempo todo à disposição. No nosso grupo, apareceram queixas de excesso de horas trabalhadas, sensação de obrigação de demonstrar aos líderes que estão produzindo o tempo todo, e com isso surgem cansaço e frustração em não dar conta dos outros papéis que exerce na vida pessoal. Contudo, durante a pandemia houve aumento de estresse e insônia, incluindo o ‘Zoom Fatigue’ ou ‘Fatiga do Zoom’, que é o esgotamento causado pelo excesso de videoconferências”, acrescenta.



DICAS


-É importante perceber que a produtividade do trabalho exercido de casa é diferente do exercido dentro da empresa, pois existem diferentes variáveis em cada ambiente. Em casa, há filhos, pets, demandas domésticas, divisão do espaço com familiares, entre outros fatores que diferem de acordo com o contexto de cada um. Contudo, uma coisa é trabalhar em regime de home office sem pandemia, com a possibilidade de fazer reuniões presenciais, outra coisa é home office ou home office compulsório (na pandemia), quando há outros estressores incluídos.


-Planejamento e organização são pontos fundamentais: antes da pandemia, ao sair do trabalho para casa, este movimento sinalizava “hora do descanso”. Com o distanciamento social, o trabalho foi levado para dentro de casa, e o que era local de descanso e lazer teve de dar lugar ao trabalho profissional. Portanto, é importante delimitar tempo e espaço para cada papel exercido dentro do mesmo ambiente, para que a casa/família seja minimamente afetada pelo trabalho e vice-versa. 


-Planejar uma rotina, colocar na agenda todas as atividades do dia/semana, definir o horário de trabalho, fazer pausas, comunicar à família e colegas o seu horário de trabalho. Comunicação é crucial.


-Definir o local de trabalho: o ideal é definir um local de trabalho na casa, considerando a realidade de cada trabalhador, mas o importante é materializar o local de trabalho, seja num cantinho da sala ou em um cômodo privado.


-Cuidar do bem-estar: se você está bem física e psicologicamente, sua produtividade melhora. Deve colocar na agenda momentos de lazer também.


-O trabalho remoto é muito relativo quanto às vantagens e desvantagens, porque devemos considerar o contexto de cada um. Há pesquisas que mostram que algumas mulheres preferem trabalhar em home office para ficar com os filhos, enquanto outras, mesmo com filhos, preferem trabalhar na empresa, pois não conseguem conciliar. Isso vai desde o espaço físico até a dinâmica familiar.

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