Marina de Albuquerque
Jornalista
Quando entrei para a faculdade de Jornalismo, meu sonho era ser fotógrafa da National Geografic. Fiz faculdade em Florianópolis. Eu amava as saídas de campo, certa vez fui fotografar a ponte Hercílio Luz, atrativo turístico, e junto de um colega de classe adentramos a noite fotografando o Centro da cidade e nos deparamos com a situação dos moradores de rua e, ali mesmo, escolhemos nosso tema para uma grande reportagem. Durante três dias, frequentamos o Centro escrevendo e fotografando a vida desses moradores.
Lembro que em uma dessas noites meu amigo, ouvindo a história de um dos moradores debaixo da ponte, dormiu, me deixando sozinha com eles. Eu nunca senti tanto medo e ao mesmo tempo tanta coragem na minha vida, nada demais aconteceu, fiz umas fotos, terminei de ouvir a história e o acordei para irmos embora.
Dizem que o jornalismo é como cachaça, acho que porque, quando você se embrenha nesta jornada, você se torna uma espécie de escravo ou dependente dele, porque na vida tudo pode ser contado ou fotografado, ou seja, qualquer coisa pode ser noticiada. Uma vez, um homem sábio me disse: “Até mesmo a falta de notícia é uma notícia!”.
E nesta jornada como estudante passei por muitas aventuras. Numa outra vez, fomos ao Fórum Social Mundial em Porto Alegre e a cidade é muito “fotografável”. Ela é cercada por paredes grafitadas, pessoas diferentes, rodas de amigos à beira da lagoa, tudo que sempre me interessou: cultura, arte e pessoas.
Então, em uma caminhada dessas, explorando este campo a céu aberto, me deparei com um grupo de punks, daqueles originais: moicanos grandões coloridos na cabeça, roupas de couro apertadas e muita atitude. Eu fiquei maravilhada e com sede de registrar aquilo. Inocentemente no alto dos meus 19 anos, fui tirando as fotos um pouco de longe, então, resolvi me aproximar para pedir permissão e ver se me deixavam tirar fotos mais de perto. A reação deles foi a pior possível, eles gritavam e corriam atrás de mim, xingando e exigindo que eu entregasse a câmera. Mas eu consegui fugir. Foi um momento único e icônico da minha carreira.
Mais tarde, trabalhei em jornal impresso, primeiro como redatora, sempre gostei de escrever, mas a correria de entregar no prazo os textos não me deixava nem um pouco feliz, então, seguindo o que mais me encantava, fiquei por oito anos fotografando.
Hoje reconheço que o texto que leva tempo, e que tem tempo de ser escrito, me encanta muito mais, por isso, a literatura ficcional misturada com relatos reais, assim como o jornalismo literário, são a minha cachaça, ou melhor dizendo: a água da qual eu gosto de beber.