Estou revisitando a Renata de 2015. Não a das fotografias, mas a das palavras. A cronista, que escrevia (e ainda escreve) no ritmo dos acontecimentos da vida — filhos crescendo, sonhos em construção, (in)certezas, pequenas-grandes questões do cotidiano.
Um dos meus projetos para este ano é organizar uma nova coletânea com as crônicas que publiquei no Diário do Sul. A primeira — e até hoje única — reunião desses textos foi também meu livro de estreia, em 2015. Desde então, aventurei-me por outros gêneros, mas deixei as crônicas adormecidas nas páginas do jornal. Agora, para dar forma a esse novo livro, estou relendo cada uma delas, como quem abre cartas antigas guardadas em uma gaveta. Confesso que iniciei esse processo com certo receio. Pensei: será que vou sentir vergonha? Vou achar tudo ingênuo demais? Simples demais? Cru demais?
Afinal, o tempo nos ensina. A escrita amadurece. A técnica se apura. A gente aprende a cortar excessos, a lapidar frases, a respirar melhor dentro do texto.
Mas, para minha surpresa — e alegria — não senti constrangimento algum, muito pelo contrário. Encontrei ali uma mulher inteira. Talvez mais impulsiva. Talvez menos consciente de certos recursos literários. Mas inteira. Verdadeira. Fiel ao que sentia. Fiel ao que pensava.
Fiquei aliviada e, de certa forma, emocionada, porque percebi que, embora eu tenha evoluído na forma, a essência permanece. Aquele olhar atento para o cotidiano. A tentativa de extrair sentido das pequenas coisas. A ternura misturada com uma leve ironia. As palavras como coragem e afeto.
O estilo amadurece, sim. A construção se torna mais sólida. A experiência amplia repertórios. Mas o que é essencial não se dissolve.
Existe uma linha invisível que atravessa todos esses anos. Uma espécie de fio de ouro que liga a cronista de ontem à de hoje. E esse fio é minha identidade, meu modo de sentir, minha maneira de enxergar o mundo.
Reler meus textos antigos foi como me reencontrar — não com uma versão ultrapassada de mim mesma, mas com a raiz.
E talvez seja isso que mais me tranquiliza: podemos crescer, estudar, aprimorar, experimentar outras formas. Podemos inclusive mudar de opinião. Mas aquilo que escrevemos com verdade guarda nossa impressão digital.
A cronista de 2015 ainda mora em mim. E fico muito feliz por isso. Porque se a técnica evoluiu, a essência permaneceu. E é nela que a minha escrita encontra sua morada — ontem, hoje e sempre.