Recentemente, conversando com uma prima, ela compartilhou comigo uma história no mínimo surpreendente. Contou que uma amiga de adolescência, de quem gostava muito e considerava sua melhor amiga, havia se casado e mudado completamente de comportamento.
Elas se conheciam há mais de dez anos e desde então viviam grudadas, pois tinham muito em comum: gostavam dos mesmos amigos, frequentavam os mesmos lugares, cursavam arquitetura juntas. Dividiam segredos, angústias e alegrias.
Porém, há cerca de dois anos, a amiga começou a namorar seu atual ex-marido. Segundo minha prima, ele era um rapaz arrogante, ciumento e mandão, adorava dar opiniões — muitas vezes equivocadas — sobre “a boa conduta feminina”.
Algumas de suas frases mais frequentes na roda de amigos eram:
“Mulher minha não se veste assim.”
“Se ela quiser ficar comigo, vai ter que deixar de frequentar alguns lugares e de cultivar certas amizades.”
Fui escutando e, até então, achei que ela estivesse contando mais um caso de marido machão e sem noção, vindo direto dos anos 40. Foi então que minha prima me disse que, mesmo com todas essas preciosas opiniões vindas do marido, a amiga estava cada vez mais apaixonada.
Para agradá-lo, a amiga começou a usar roupas mais recatadas e deixou de ir aos lugares em que pudesse encontrar as amigas, pois, segundo o marido, eram todas “rodadas”. Pior ainda: passou a repetir o discurso dele, dizendo que, para conquistar um homem, a mulher precisava fazer grandes concessões.
Confesso que fiquei sem reação. Não me lembro da última vez em que ouvi tanta besteira verbalizada por um casal. Será que esse tipo de comportamento ainda é comum entre nós, mulheres?
Sei que conheço algumas que viraram torcedoras fanáticas de determinado time apenas para agradar o namorado. Mas absorver o pensamento e o gosto do ser amado a ponto de abrir mão da própria identidade para conseguir migalhas de amor é demais para minha compreensão.
O que fez minha prima dividir essa história comigo foi o desfecho: há pouco tempo, a amiga foi trocada por outra e entrou numa depressão profunda.
Com a convivência, ela havia absorvido tanto o jeito do marido que, quando ele a deixou, ficou sem chão. Já não sabia direito quem era.