Pacientes permanecem em macas e até em cadeiras nos corredores. Projeto de ampliação depende de recursos
Macas enfileiradas no corredor da emergência e até pacientes aguardando cirurgias em poltronas antigas, sem qualquer conforto. A superlotação no Hospital Nossa Senhora da Conceição, em Tubarão, deixou de ser sazonal e se tornou realidade diária, tendo picos ainda mais altos em determinados períodos da semana. Para o problema há ações que amenizam, mas estão longe de resolver a situação.
Na segunda-feira, a procura pela emergência do HNSC atingiu um desses picos. E o local, que já estava lotado, ficou ainda pior. Ontem, quando a procura já foi um pouco menor, os quartos de enfermaria do setor estavam lotados, o corredor tinha macas de uma ponta até a outra e, nas laterais da porta do elevador, mais pacientes permaneciam internados. Acompanhantes aguardavam em pé ou em cadeiras parecidas com aquelas de escola.
Nas paredes era possível ver os nomes de cada um e desde quando estavam ali, com os mais variados tipos de problemas e dores. O local virou setor de internação e não apenas atendimento de emergência. A todo o momento, entre essas pessoas, passam acidentados, pacientes que deram entrada por AVC e gestantes, por exemplo. “Há pacientes que ficam vários dias aqui. Não há quartos vagos”, comentou uma enfermeira.
Alguns chegavam a pedir para os acompanhantes para serem levados embora. Uma senhora aguardou à noite toda e parte de uma manhã em uma poltrona antiga e dura, recebendo medicações e soro, para depois ser encaminhada ao centro cirúrgico. Na porta do local estava escrito sala de observação.
Ela também precisou tomar banho para se preparar para a cirurgia e, ao pedir uma toalha, foi informada que o setor não recebia aquele tipo de material. A paciente foi aconselhada a usar um lençol. Outro problema relatado por pacientes é exatamente a pouca quantidade de banheiros para atender tantas pessoas, que se aglomeram e permanecem no local por mais tempo do que deveriam.
Quando a equipe do HNSC arranja um espaço melhor em outro setor já é motivo de comemoração. “Conseguimos transferir essa paciente para o corredor do andar de cima”, comemorou o enfermeiro, empurrando a mulher em uma cadeira de rodas, deixando claro que os outros setores sofrem com a falta de espaço.
Equipe médica é um caso à parte
Apesar de todo o caos da emergência, agravado pela internação de pacientes em local que deveria ser de passagem, toda a equipe se sobressai. “Os médicos e enfermeiros atuam como verdadeiros psicólogos aqui. Eles conseguem parar para ouvir as queixas dos pacientes e tentam dar algum conforto, mas, mesmo que façam o melhor, não conseguem mudar a situação. Vai além deles. É um problema de falta de estrutura, que não comporta mais a demanda”, comenta uma paciente.
Ao longo dos atendimentos, é possível ver, por várias vezes, médicos dando apoio aos pacientes. Os enfermeiros correm de um lado para outro tentando manter um mínimo de simpatia. No início de um novo turno, eles chegam a passar anunciando os nomes dos pacientes para descobrir onde estão “alojados” e dar a medicação. “Meu Deus, tem gente internada até aqui”, se surpreendeu uma enfermeira ao achar uma paciente na sala de observação. “Eles fazem milagre nesse cenário de guerra”, completa outra senhora.
HNSC aguarda recurso para nova emergência
Diante da situação, o HNSC explica que o problema com a superlotação é constante no setor. De acordo com a assessoria da instituição, frequentemente a emergência SUS do HNSC passa por períodos de superlotação, muito por ser referência de hospital, que atende diversas especialidades e para alta complexidade na região. “Além disso, recebemos diariamente toda a demanda ambulatorial e de baixa complexidade da atenção básica, que representa 60% dos atendimentos”, fala.
A superlotação é uma soma dos atendimentos de urgência e emergência que a unidade recebe na porta. “Fazemos parte da Rede de Urgência e Emergência, de encaminhamentos médicos para internação e de pacientes em observação e atendimento de classificações pouco urgente ou não urgente. Com todo este contexto, incluindo a realização de cirurgias contratualizadas SUS que atendemos e a alta ocupação dos leitos clínicos, os pacientes aguardam por leitos de enfermaria no setor de emergência”, explica a assessoria.
Uma das ferramentas para tentar contornar a situação é colocar em ação o plano de capacidade plena. Ele funciona como um plano de contingência para superlotação, baseado na quantidade de pacientes internados na emergência aguardando leitos de enfermaria. “Quando o plano está ativado, cada área tem uma lista de ações a executar para otimizar as operações e, assim, reduzir a superlotação. Uma das ações é reduzir a quantidade de pacientes nos corredores da emergência que tem grande circulação de pessoas em atendimento, encaminhando alguns pacientes para algumas unidades distribuindo a assistência entre elas”, complementa a assessoria.
“Precisamos do apoio da atenção básica no atendimento aos casos de baixa complexidade e do município para a implantação de uma Unidade de Pronto Atendimento, para que o serviço do nosso setor seja, de fato, direcionado a atendimentos com esta classificação de urgência e emergência”, completa.
Ainda numa tentativa de solucionar o problema, em abril do ano passado, foi entregue ao ex-governador de Santa Catarina, Carlos Moisés, o projeto da construção da nova emergência. O investimento necessário na época era de R$ 15 milhões. “O recurso será do Estado. Estamos com o projeto pronto e aguardando a verba”, afirma a assessoria em nota enviada ao DS.
Maternidade lotada
O Centro Materno Infantil do HNSC também está com superlotação. Desde o último domingo, apresenta um aumento no atendimento a gestantes/parturientes e no nascimento de bebês. “No momento, estamos em busca de leitos externos para pacientes em hospitais da região. Devido a este cenário, não serão mais marcadas cirurgias eletivas para esta semana, com o objetivo de estabilizar o atendimento e garantir a qualidade e a segurança das pacientes. Este cenário se dá ao não funcionamento das maternidades da região”, explica a assessoria do HNSC.