O surfe entrou definitivamente na vida Mário Fermínio quando ele tinha 15 anos, ao ganhar sua primeira prancha, ainda na década de 80. E foi nesta época também e a partir da primeira prancha que teve início a veia criativa e inovadora do então adolescente, e, como todo surfista que se preze, também a preocupação ambiental. Ele é morador de Tubarão.
Na primeira prancha, como as quilhas eram muito grandes – e na falta de opções de locais que pudessem adaptá-las ao tamanho correto, Mário deu seu jeito próprio: cortou, ele mesmo, as quilhas, que acabaram, então, ficando muito pequenas. Foi em busca de pedaços de madeira para consertar a quilha, e fez ali o que seria o início de sua profissão: shaper – quem faz pranchas de surfe.
No final da mesma década, ele foi para a França, onde entrou pela primeira vez em uma fábrica de pranchas. Lá, conheceu a resina epóxi e a trouxe para o Brasil para fabricar seus produtos, até então feitos de poliuretano. “Fui o precursor do epóxi no país. Foram dez mil pranchas utilizando este material reconhecido pela resistência”, pontua.
Foi morando no Guarujá (litoral de São Paulo) que seu trabalho teve, inclusive, reconhecimento internacional, com pranchas sendo produzidas para campeonatos mundiais de surfe. Mas, em 2012, a preocupação ambiental e a desmotivação com o trabalho o fizeram decidir abandonar o processo ao descobrir os perigos da resina epóxi aos oceanos, passando a criar produtos ecologicamente corretos. “Ninguém fala muito sobre isso, mas o epóxi contém a substância Bisfenol A (BPA), química presente em produtos como os sacos plásticos, e que esteriliza os oceanos”, revela o shaper. Ele parou de fazer pranchas e começou a desenvolver objetos gerados a partir do lixo da produção de construção.
Mas a criatividade, o espírito inovador e a ligação com o surfe falaram mais alto, e há dois anos Mário Ferminio, sempre de forma autodidata, encontrou uma saída em uma resina vegetal proveniente da mamona, sugerida tempos atrás por um conhecido quando viu seus trabalhos.
Era o que o lagunense, agora morando em Tubarão, precisava para voltar a fazer as pranchas. “Ela já era usada para outras finalidades, mas não em pranchas. Quando comecei a fazer testes, encontrei muitos problemas até chegar ao produto que tenho hoje”, conta. A produção das primeiras pranchas está sendo feita em um galpão na Cidade Azul.
“É um produto comprovadamente ecológico, não tem cheiro, não contém solventes ou aditivos químicos. Depois de muita pesquisa e testes, achei um conjunto de materiais que possibilita a fabricação de pranchas. Minha insistência e um pouco de sorte me ajudaram muito”, comenta.
De Tubarão para o mundo
A ideia é expandir este novo modelo de prancha para todos os estados e pelo mundo. Já “não quero o monopólio dessa tecnologia. Iremos ser o primeiro país no planeta a começar essa mudança”. Segundo Mário Fermínio, ele já conta com representantes na Austrália, e está entrando no mercado da Califórnia e da Europa. A prancha, que pode ser feita de vários modelos, incluindo longboard e stand-up paddle, tem a mesma qualidade da performance de uma prancha feita com poliuterano. “Ela fica mais grudada na água. Além disso, é muita emoção você conseguir surfar sabendo que tem um matéria-prima orgânica, da natureza”, conclui.