Felipe Felisbino
Professor
Inicio lembrando a expressão “In dubio pro reo”, que significa: na dúvida, em favor do réu. Que tal aplicar esse termo jurídico no senso comum - aquele que condena pelo seu ponto de vista, pelo que ouviu falar, e sem dúvida, pelas conveniências.
O princípio jurídico está baseado na presunção da inocência, onde ninguém é culpado até que se prove o contrário. Para uma condenação, é necessária a certeza e não apenas indícios e presunções quanto à autoria.
A dúvida razoável também se encontra na mente do prejulgador e o deixa em uma condição tal que não pode afirmar que experimenta uma convicção perdurável, que produz certeza moral sobre a verdade que busca.
Ao longo dos últimos séculos são inúmeros os exemplos de prejulgamento que, depois, colocaram a humanidade em estado de arrependimento – o caso Joana d’Arc, por exemplo, primeiro a fogueira, depois santa.
O senso de justiceiro (aquele que pede justiça, mas, na verdade, quer vingança) quer fazer cumprir uma visão idealizada e utópica da vida, de que ela é essencialmente justa e conciliadora. E mais: quem tem esse senso de justiceiro se vê, se entende como dono da verdade.
É louvável e digno lutar por justiça, mas se a falta de discernimento afeta sua convivência com as pessoas, a obsessão pela justiça pode se transformar num problema para conviver com as outras pessoas - que também são vítimas e agentes de injustiça: infelizmente, para nós, seres imperfeitos, é difícil entendermos que, do nosso ponto de vista, a vida não é justa.
No exercício da atividade pública, não podemos achar que seremos poupados de críticas. Ora, nossa competência não pode nos blindar de sermos questionados ou criticados, afinal, o melhor ou o pior profissional é passível de avaliação, sem privilégios.
Pode parecer que tenho a pretensão do conformismo passivo, como se não houvesse nada a ser feito, ou que isso levaria a uma inevitável alienação, mas não é nada disso.
O ponto em questão é a “condenação estrutural”, sem a clareza dos fatos, o que implica reflexão e análise sobre o que ouvimos, vemos, divulgamos e fazemos.
Se você quer fazer do mundo um lugar melhor, comece pelo seu quintal, sua rua, seu bairro, sua cidade; não propague aquilo que pode ser uma injustiça.
Descubra quais os limites entre o que você tem e não tem controle, para não se tornar apenas um panfletário chato, inconveniente e raivoso: justiceiro cego.
A obsessão pode criar um paradoxo, distanciando-lhe do ideal que tanto busca.
Não é algo simples, não é fácil, nem tem roteiro, mas é preciso tentar, ou estaremos lutando com os moinhos de vento.