Por Felipe Felisbino | Professor
O caso do cachorro Orelha abalou consciências e nos lançou diante de uma pergunta incômoda: onde erramos como sociedade para permitir que a crueldade ainda encontre espaço em nosso cotidiano? Não se trata de um episódio isolado, mas de um sintoma profundo de fragilidade ética, afetiva e formativa. É o retrato de uma sociedade que avança em tecnologia, mas tropeça em humanidade.
Em mais de dois mil anos de história civilizatória, acumulamos saberes, leis, tratados, discursos sobre direitos, dignidade e convivência. Produzimos códigos, constituições e declarações universais. No entanto, paradoxalmente, seguimos falhando no mais elementar: o respeito à vida. Cercados de informação, continuamos carentes de sabedoria. Conectados ao mundo, permanecemos desconectados do outro. Como compreender tamanha contradição?
É inevitável olhar para a família como primeiro espaço educativo. É ali que se formam valores, afetos, limites e referências. O ditado afirma que “a fruta não cai longe do pé”. Mas seria justo aplicá-lo automaticamente? Nem sempre. Pessoas são mais do que seus lares de origem. Constroem-se também na escola, na comunidade, na cultura, nas redes e nos exemplos que escolhem seguir: “diga com quem andas, que direi quem és”. Culpar pais e familiares sem conhecê-los pode ser injusto. Ainda assim, é legítimo perguntar: que espelhos estamos oferecendo às novas gerações?
A escola, por sua vez, não pode restringir-se à transmissão de conteúdos obrigatórios. Sem empatia, ética e senso coletivo, o conhecimento torna-se instrumento vazio. As humanidades não são luxo: são fundamento. Elas nos ensinam a pensar, sentir, dialogar e reconhecer limites.
A violência atravessa todas as classes sociais. Não escolhe endereço, renda ou sobrenome. Quando surge nas elites, revela que conforto material não constrói caráter. Quando emerge nas periferias, escancara a exclusão, a invisibilidade e a ausência de oportunidades. Em ambos os casos, manifesta-se o mesmo vazio: falta de sentido, pertencimento, horizonte e humanidade.
Preocupa a tentativa de transformar esse episódio em rótulo para Santa Catarina. A generalização é um erro perigoso, que simplifica realidades complexas e alimenta preconceitos. Nenhuma sociedade está imune à barbárie. Um estado não se define por um ato isolado, mas pela coragem de enfrentá-lo com seriedade, pela capacidade de responsabilizar os envolvidos, fortalecer políticas públicas e transformar dor em aprendizado coletivo.
Somos convocados à autocrítica e à responsabilidade. Não basta indignar-se. Precisamos assumir nossa parte, não apenas no discurso, mas na prática, ensinando pelo exemplo: que a força não gera grandeza e que a crueldade nunca é sinal de poder. A verdadeira civilização começa quando aprendemos a escolher conscientemente, a não ferir, nem pessoas, nem animais, nem a dignidade humana.