Fico muito triste quando, mesmo sem querer, decepciono as pessoas. Faço um esforço enorme para agradar a todos, mas nem sempre consigo, é claro. Minha dificuldade em dizer “não” é gigante. Sempre que frustro a expectativa de alguém me vem à cabeça uma cena recorrente na infância, na qual estou na minha casa brincando com alguma amiguinha e a certa altura ela quer pegar minha boneca. Digo que não e ela fala que se eu não emprestar a boneca ela vai embora. Para não perder a amiga deixo que ela fique com a boneca.
Muitos anos depois, quando minha filha mais velha, a Carol, estava com uns seis anos a cena voltou a ser repetir, e, desta vez, foi com ela. Chego no quarto da Carol e vejo a amiga dizendo que se ela não a deixasse ser a mamãe ela iria embora. Carol na mesma hora cedeu. Depois que a menina se foi, chamei a Carol para conversar e me contar o que havia acontecido. Ela estava muito chateada, pois gostava muito dessa amiga e não queria decepcioná-la. Expliquei então, que ela podia entrar num acordo com a amiga, uma hora ela seria a mamãe e outra hora a filhinha. Falei que o fato de ela não ceder de vez em quando não faria com que a amiga deixasse de gostar dela.
Quando a amiga voltou para brincar, Carol seguiu meus conselhos e ficou feliz da vida ao verificar que a chantagem não funcionava mais, pois ela se negou a fazer tudo o que amiga queria e mesmo assim ela não foi embora. Por fora, disse calmamente que assim é que deveria ser, pois nem sempre daria para fazer apenas o que a amiga queria. Mas, por dentro, estava soltando fogos, dando pulos de alegria, pois Carol havia conseguido o que eu nunca consegui fazer, pois mesmo que a amiga cedesse, ficava triste por ter que dizer não a ela.
Haja terapia para superar esse sentimento de culpa por não satisfazer a vontade de alguém. Não sou mais aquela menininha insegura de outrora, a vida já se encarregou de me ensinar algumas coisas, mas, por vezes, quando recuso um convite, ou não consigo participar de algum evento, o sentimento da menina Renata vem à tona, minha vontade é “dar a minha boneca”, mas respiro fundo e digo, com todo jeitinho, o que preciso dizer: “sinto muito, mas desta vez NÃO”.