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RENATA DAL-BÓ

07/01/2026 06:00

Eu por mim mesma

Afinal, quem sou eu? Será que sou aquilo que penso ou o que as pessoas veem de mim? E o que as pessoas veem de mim? Qual a minha identidade? 

Esta semana me pediram para responder um pequeno questionário sobre mim (o que gosto, o que não gosto, um medo, um sonho, alguém para lembrar, um momento para recordar, sou...).

Achei que iria cumprir a tarefa em minutos, mas nunca pensei tanto. Como é difícil nos definirmos. São tantas as peles que nos habitam, são tantas as máscaras que vestimos. Parecia que quanto mais eu queria me definir, mais eu me perdia de mim mesma. Já fui tantas, já mudei de gosto e opinião tantas vezes. Ainda tenho tanto a me descobrir. Meu nome “Renata” significa “renascida”, “ressuscitada” ou “nascida pela segunda vez”. A impressão que tenho é que renasço de tempos em tempos e, de tanto renascer, fui me transformando na pessoa que tem o meu nome. 

E o que posso dizer a meu respeito? Como canta Legião Urbana: “Acho que não sei quem sou, só sei do que não gosto”. Se tento me definir pelo que não gosto, será que estou falando de quem sou ou de quem não sou? Odeio, por exemplo, violência de qualquer tipo, preconceito e falta de respeito. Luto para não ser e não conviver com este tipo de “ser humano”. Também não gosto de pessoas concretas, que só enxergam dois lados para as coisas, que querem tudo “preto no branco”, que não conseguem abstrair, simbolizar, que não se permitem voar, sentir as nuances da vida. 

Não gosto de brigar nem de criar polêmica. Acho até que é um defeito meu, deveria ser mais raçuda ao defender meus ideais. Mas acho que consegui fazer isso por meio de meus escritos, sem precisar ficar batendo boca com ninguém. Digamos que faço uma resistência pacífica. Luto com as armas que tenho: a escrita.

Tem mais duas coisas que eu realmente odeio: barata e mentira. De barata tenho muito nojo e de mentira tenho repulsa. Uma vida mentirosa é uma vida vazia, inútil, desperdiçada. 

Dos sete pecados capitais, quais cometo? Sou assumidamente gulosa e preguiçosa. Os outros cinco cometo um pouquinho de cada um. Quem nunca?

E afinal, do que gosto? Gosto de tantas coisas: de ser mãe, de amar verdadeiramente, de estudar, escrever, viajar, dormir, gosto de dia frio ensolarado, do silêncio da noite, do cheiro de chuva no asfalto, gosto muito de cachorro, torta mineira, picolé de coco...

Um medo? Tenho vários, mas o principal deles é perder as pessoas que amo. Ah, acho que, com a idade, perdi o medo do ridículo.

Um defeito? Como é difícil enxergarmos os próprios defeitos. Devo ter muitos. Dizem que sou teimosa, mas teimo em discordar. 

Um sonho? Nunca, jamais, deixar de sonhar. 

Uma qualidade? Tenho várias (risos), mas acho tão deselegante ficar se autoelogiando.

A última parte do questionário foi a mais difícil de completar: “Sou...”.

Para responder recorri ao poema Tabacaria, de Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa: “Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte disso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.”

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