Aos 93 anos, Benjamin Barreto usa máquina de datilografia para falar de vida
Em meio ao som ritmado das teclas e ao cheirinho do papel recém-datilografado, Benjamin de Oliveira Barreto, 93 anos, transforma sentimentos em palavras.
Entre poemas, cartas e pequenos textos, ele mantém viva uma tradição rara: a arte de datilografar. E o tubaronense não apenas tem isso como um hábito, mas como uma forma de se conectar com o mundo e com as pessoas que ama.
Quem conta essa história é a neta de Seu Benjamin, Marina Barreto Pereira, de 27 anos, que cresceu vendo o avô transformar o simples ato de escrever em um gesto de afeto.
“Ele me ensinou a datilografar desde pequena, e talvez por isso eu tenha desenvolvido tanto gosto pela escrita. De vez em quando, ainda me arrisco na máquina, mas a verdadeira estrela é ele”, conta Marina.
Benjamin trabalhou no INSS, mas foi na aposentadoria que encontrou na datilografia um refúgio e um propósito. “Ele tem duas máquinas e, desde que me conheço por gente, as usa. Enquanto muitos acham uma cena incomum, para nós é cotidiano: ele usa a máquina como usamos o computador”, brinca a neta.
Exemplo
Embora sempre tenha gostado de escrever, Benjamin voltou a datilografar com mais frequência depois de uma grande perda. “Foi após o falecimento da minha avó que ele retomou esse hábito quase todos os dias. Acreditamos que foi a forma que encontrou para colocar pra fora a dor, a saudade e tudo o que o coração não conseguia dizer em voz alta”, revela Marina.
O que começou como um consolo se transformou em um gesto de amor. Hoje, Benjamin escreve para todos: familiares, amigos, vizinhos e até profissionais que o acompanham na rotina de cuidados. “Ele presenteia sempre em datas especiais: tanto as pessoas da família quanto quem está ao seu redor, como a fisioterapeuta e o pessoal da clínica de hemodiálise. Quase todo mundo da vida dele já recebeu uma cartinha do seu Benjamin”, conta.
Escrita que transforma
Seu Benjamin enfrenta um problema renal e realiza hemodiálise três vezes por semana. Ainda assim, não perde o bom humor nem a vontade de escrever. “Quando ele começou o tratamento, achamos que poderia ficar debilitado, mas ele lidou com tudo muito bem”, lembra Marina.
Nesta semana, Marina conta que o avô foi surpreendido: os profissionais da clínica prepararam uma pequena festa e o presentearam com uma carta, um gesto simbólico para retribuir o carinho que ele oferece diariamente em forma de palavras.
Além de criar, Benjamin compartilha cada novo texto com a família. “Antes de entregar ao destinatário, ele sempre mostra para nós. Lemos em voz alta, ouvimos juntos e damos nossa opinião. É uma forma de participar do que ele cria com tanto carinho”, diz Marina. Entre tantos textos, há um que marcou profundamente a família: uma carta escrita logo após a morte da esposa.
“Meu avô sempre foi mais reservado em demonstrar sentimentos, mas tem o dom de se expressar através da escrita. Essa carta foi a mais marcante para todos nós”, relembra a neta.
Marina conta que Benjamin não segue um ritual rígido para escrever. “Ele apenas se senta à mesa da sala, sempre na mesma cadeira, e deixa as ideias fluírem. A datilografia o mantém motivado e dá propósito aos dias”, afirma.
Com dezenas de textos guardados, a família já pensa em reunir os escritos em um livro. “É uma ideia que temos há tempos, mas que ainda não colocamos em prática”, admite.
Para Marina, o maior ensinamento do avô vai além da escrita: “Aprendemos com ele que envelhecer com propósito é continuar curioso, criativo e aberto às pequenas alegrias da vida. Ele mostra, na prática, que a idade não é um limite, mas uma oportunidade de continuar crescendo e se expressando”, destaca.