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O rosto da juventude brasileira

Artigo

18/03/2026 06:00|Por Felipe Felisbino | Professor

Entre percepções cristalizadas e dados empíricos, uma geração revela novas formas de engajamento e redesenha o debate público. Muito se repete, quase como um senso comum já naturalizado, que os jovens de hoje são apáticos, desinteressados e pouco comprometidos com os rumos da sociedade. Essa leitura, contudo, parece menos uma constatação empírica e mais um ruído geracional, expressão de uma dificuldade recorrente de compreender as novas formas de participação. Ao confrontarmos essa percepção com os dados apresentados por Felipe Nunes, em Brasil no Espelho, o diagnóstico se revela, no mínimo, precipitado.

As evidências indicam que as novas gerações, em especial a chamada geração Z, apresentam padrões de opinião distintos dos observados em períodos anteriores. São, em média, mais abertas à diversidade, menos tolerantes à desigualdade, mais sensíveis ao racismo e mais favoráveis a políticas de proteção social. Trata-se de uma inflexão relevante em um país historicamente marcado por profundas assimetrias. Não se está diante de ausência de posicionamento, mas de uma reconfiguração dos valores que orientam a leitura de mundo desses jovens.

É verdade que essa mesma geração demonstra menor adesão às formas tradicionais de participação política. Partidos, sindicatos e estruturas institucionais clássicas já não exercem o mesmo apelo. É nesse ponto que se instala o equívoco: confunde-se distanciamento institucional com desinteresse público. Os dados, contudo, apontam em outra direção, indicando uma mudança na forma, e não na substância, do engajamento.

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A crítica permanece presente, e possivelmente mais aguda. O que se altera é o canal por meio do qual ela se expressa. A participação desloca-se para outras arenas, como redes sociais, movimentos difusos, pautas identitárias e práticas cotidianas de consumo e posicionamento. Trata-se de uma política menos ancorada em estruturas rígidas e mais orientada por valores e causas.

Há, evidentemente, nuances que não podem ser ignoradas. Como o próprio autor ressalta, parte dessas diferenças pode ser atenuada com o avanço da idade. Ainda assim, há relativo consenso entre estudiosos de que experiências geracionais, moldadas por contextos históricos, tecnológicos e culturais específicos, tendem a produzir marcas duradouras. Isso sugere que o Brasil do futuro poderá refletir, ao menos em parte, essas novas disposições.

O desafio, portanto, não reside em diagnosticar uma suposta apatia, mas em compreender uma transformação em curso. Ao insistirmos em categorias analíticas do passado para interpretar comportamentos do presente, corremos o risco não apenas de um diagnóstico equivocado, mas de perder a oportunidade de dialogar com uma geração que, à sua maneira, já participa ativamente da redefinição do espaço público.

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