As fortes chuvas que caíram sobre Santa Catarina desde o início do mês fizeram muitas pessoas relembrarem a enchente de 1974, que devastou Tubarão. Uma reportagem do jornal O Globo destacou “Enchentes no Sul do Brasil resgatam trauma de tragédia histórica em Tubarão”.
O começo do texto já foi impactante: “Parecia o fim do mundo. Depois de chuvas torrenciais e muito alagamento, a prefeitura de Tubarão estimava em centenas o número de mortos. Seus corpos iam sendo transportados por caminhões e enterrados às dúzias em valas comuns, depois de fotografados de frente e de costas, para posterior identificação”.
O prefeito na época, Irmoto Feuerschuette, que atuou incansavelmente durante e depois da tragédia, contesta, no entanto, algumas destas afirmações, principalmente às relacionadas ao número de mortes e às vítimas enterradas em vala comum. “Muito se fala que foram 199 mortos na região, o que já foi comprovado ter sido bem menos. Na realidade, a contagem na época incluiu outras cidades que não faziam parte da bacia do rio Tubarão e até alguns dados duplicados”, explica.
Segundo Irmoto, em toda a bacia do rio Tubarão foram 111 mortos oficialmente, sendo 78 em Tubarão. Considerado até hoje como um dos grandes responsáveis pela recuperação da cidade após o acontecimento, o autor relembra em seu livro “Tuba-Nharô: O Pai Feroz” tudo o que ele, como prefeito, e os moradores, sentiram naquele fim de semana do dia 24 de março de 1974, data que está marcada para sempre na memória da cidade.
“Não só vivi na pele cada segundo daqueles dias fatídicos, como, para escrever o livro, fiz inúmeras pesquisas, inclusive com dados buscados em registros de cartórios”, pontua.
Ele destaca que naqueles dias a preocupação estava em contar e listar. “Eram feitas fotos e tiradas impressões digitais dos mortos no cemitério, especialmente para que fossem identificados depois. Só que houve muita confusão, a cidade estava um caos e a prioridade era salvar e dar assistência às pessoas”, completa.
Ficaram 12 corpos em vala comum
Outro fato contestado por Irmoto Feuerschuette está relacionado às pessoas que não foram identificadas e enterradas em vala comum.
“Nunca foram dúzias, ao todo, nas valas comuns, foram 17 corpos, mas cinco deles foram identificados posteriormente e enterrados. Doze permaneceram sem identificação. Hoje as ossadas estão enterradas no cemitério Horto da Saudade”.
Além disso, a imagem de um corpo sobre a caçamba de um caminhão também não traz as informações corretas, segundo o ex-prefeito. “Ele não ficou como indigente, pelo contrário, foi logo reconhecido por um irmão, e enterrado pela família”, conta.