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Artigo: A Vulnerabilidade e a Fortaleza

02/04/2020 06:00

Mauri Luiz Heerdt

Reitor da unisul


Estamos diante de um dos maiores desafios históricos da humanidade em termos de saúde e convivência humanas. Muitos poderão dizer que as pandemias da peste negra, na Idade Média, e da gripe espanhola, no século passado, mataram mais pessoas que o Covid-19 matará. Pode ser. Mas é verdade também que a comunicação, a conexão e o inter-relacionamento social, econômico, cultural e físico entre os povos de hoje não encontram precedentes nos cenários anteriores. O cidadão do interior da China, bem como qualquer pessoa do Oiapoque ao Chuí estão estreitamente conectados!


O cenário atual nos apresenta uma fraqueza e uma fortaleza. A fraqueza reside na fragilidade, na vulnerabilidade da nossa vida enquanto seres humanos que somos. Basta um espirro de um amigo, de um familiar ou de um desconhecido e nossa vida poderá estar em jogo. Quanto mais frágeis já estivermos, por idade ou condição física, mais forte ainda a possibilidade de maximizar nossa vulnerabilidade. Por outro lado, a fortaleza se mostra justamente diante daquilo que pode nos afetar, positivamente ou negativamente: a indivisibilidade da raça humana e a interdependência entre nós. A nossa geração nunca presenciou um momento em que somos tão próximos, e nunca sentiu tanto como é importante todos cuidarem de todos. Diante desse quadro, há somente um caminho: a solidariedade.


Não é momento de super-heróis, de encapsulados por um círculo de força, de santos protegidos por um manto protetor, nem de invocarmos poderes extra-

humanos ou quaisquer outras formas surrealistas de enfrentarmos tudo isso. A segurança que alguns acreditam ter pode desmoronar diante de um espirro.


A solidariedade inicia com a prática de atitudes simples, humildes, como permanecer em casa, lavar as mãos corretamente, higienizar o corpo e os ambientes, cuidar da imunidade, organizar a vida para trabalhar e aprender a partir dos nossos lares, além de organizar formas alternativas de comunicação e convivência.


No fundo, estamos sendo desafiados para os aprendizados de uma nova cultura e um novo relacionamento entre as pessoas, para além do contato presencial e físico. O olhar expressivo de um rosto com máscara significa também um sorriso; não querer entrar no elevador junto com você significa proteção; não abraçar e apenas sorrir de longe é afeto; passar álcool depois de cumprimentar você é respeito; não tocar o mesmo lugar que você tocou é dizer que estamos todos juntos; fazer contatos e reuniões virtuais é promover a afeição e o cuidado mútuos; ficar isolado em casa é sinônimo de querer ainda muitas vezes nos encontrarmos em nossas casas; nos vermos virtualmente equivale a dizer que nos veremos presencialmente em breve; colocar barreiras entre países, cidades e pessoas é abrir possibilidades para que possamos circular livremente o mais breve possível; ficarmos distantes equivale a estarmos próximos; estudarmos virtualmente significa que continuamos a aprender efetivamente. Enfim, isolamento domiciliar não é clausura ou prisão, mas um ato de liberdade. É optar pelo bem coletivo.


Preservar a saúde pessoal e social se dá em nome de uma matemática muito simples: promover o achatamento da curva de infecção. Sim, infelizmente, segundo especialistas, muitos de nós seremos infectados pelo Covid-19, e se isso acontecer de forma síncrona, não haverá sistema de saúde que suporte. Cada novo infectado aumenta exponencialmente o número de pessoas infectadas, e não teremos lugar para tratar, inclusive, as pessoas que sofrem de tantos outros problemas de saúde.


Enfim, estamos diante de um novo parâmetro de convivência humana. Há divergência em relação à intensidade das medidas adotadas em cada lugar, mas há convergência na análise da seriedade do problema. Ignorar, diminuir, postergar ou disfarçar não ajudarão em nada. No fundo, é algo muito simples e igualmente complexo: um simples ato de higiene ou de ficar em casa salva vidas; complexo porque teremos que enfrentar a sustentabilidade econômica e social da humanidade e ainda encontrar a cura para o Covid-19.


Salvar e preservar vidas, mais do que nunca, depende de cada um de nós!

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