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A esperança e os estudos no tratamento de paralisia

Neurologista Nelson Ubaldo Filho fala sobre cenários com o uso da polilaminina

05/03/2026 06:00|Por Redação

Nos últimos meses, uma pesquisa brasileira conduzida pela cientista Tatiana Coelho de Sampaio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), tem gerado grande repercussão no país. Estudos iniciais baseados na polilaminina, divulgados como uma grande esperança na recuperação de movimentos de pessoas paraplégicas e tetraplégicas, estão causando uma grande corrida pelo acesso ao uso da substância.

“A polilaminina é uma proteína desenvolvida a partir da placenta humana, criada e desenvolvida em laboratório, que recentemente reacendeu as chances de recuperação em pacientes com lesão da medula espinhal. Essa proteína é estudada há mais de 20 anos. O composto é uma versão recriada em laboratório da laminina, proteína que ajuda os neurônios a se conectarem. Então, sim, ela é uma esperança muito grande para pacientes com lesão medular”, explica o médico do Provida, Nelson Ubaldo Filho.

Apesar dos avanços, o médico é cauteloso. “Porém, ela está em uma fase muito inicial de estudos e, apesar de ser uma esperança e já apresentar alguns testes positivos, ainda é muito cedo para dizer que pode ser utilizada em larga escala. Só para termos ideia, são duas décadas de estudos e ainda está na fase um de desenvolvimento, então ainda há um grande caminho pela frente”, explica Nelson.

Para que essa pesquisa seja aprovada, o neurologista destaca que são necessárias mais pesquisas e testes sobre segurança e efeitos colaterais a médio e longo prazo, porque não se pode liberar substâncias sem conhecer todos os efeitos que possam surgir.

“O perigo é o fato de que os estudos não estão completos. Não temos segurança suficiente para a utilização em humanos no tratamento de lesões, como, por exemplo, a certeza de que não causará efeito teratogênico ou até mesmo câncer em alguma outra área do sistema nervoso, uma vez que é uma proteína que atua na união celular, e sabemos que muitos tumores se proliferam dessa forma. Isso ainda é uma preocupação bastante grande, e a substância não pode ser utilizada amplamente”, ressalta.

Fases da pesquisa   

Mesmo com toda a divulgação, a pesquisa está na fase 1 do desenvolvimento científico, que segue os protocolos aplicados a qualquer medicamento.

“As etapas de um experimento científico compreendem a observação, a formulação de perguntas e hipóteses, a experimentação, a análise de dados e, por fim, a conclusão. Todas as fases realmente demandam um período bastante longo, sobretudo por causa da necessidade de segurança dos resultados”, destaca.

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Esperança na polilaminina

Para o médico, a palavra no momento é cautela na divulgação dos resultados e na procura pela utilização da substância. “Não podemos sair correndo para fazer uso da polilaminina, ainda não é seguro. As pessoas envolvidas nos testes são consideradas voluntárias. Elas estão participando de um estudo ainda inconclusivo e que pode, inclusive, trazer algum prejuízo posterior, mas é uma grande esperança. É uma possibilidade extremamente importante. Os resultados iniciais parecem realmente promissores, mas temos que ter muita cautela. Não está na hora de sairmos usando; é preciso maior segurança quanto aos seus benefícios”, completa.

Jovem será o primeiro a fazer tratamento em SC

A primeira aplicação da polilaminina em Santa Catarina ocorrerá hoje, no Hospital Dom Joaquim, em Sombrio. O jovem Alison Carvalho Saldívia, de 19 anos, que sofreu uma lesão grave na medula espinhal, será o primeiro paciente a realizar o procedimento que pode promover a recuperação dos movimentos perdidos.

Apesar de estar em fase experimental, a polilaminina já apresentou resultados positivos em casos de tratamento de lesões medulares. O médico responsável pela reabilitação de Saldívia, Ângelo Formentin Neto, foi quem iniciou o contato com os responsáveis pelo estudo clínico da medicação. O procedimento deve durar cerca de 30 minutos e será realizado com a aplicação da proteína diretamente na medula.

Natural de Balneário Gaivota, Alison sofreu um trauma raquimedular após mergulhar em águas rasas em uma praia, no dia 11 de janeiro de 2026. Após a lesão, o jovem perdeu os movimentos dos membros superiores e inferiores. Desde então, ele passa por um processo de tratamento e reabilitação domiciliar.

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