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RENATA DAL-BÓ

13/03/2024 06:00

Virginia Woolf – As mulheres e a ficção

Tranque as bibliotecas, se quiser; mas não há portões, nem fechaduras, nem cadeados com os quais você conseguirá trancar a liberdade do meu pensamento”. Começo esta crônica com a frase catártica escrita no livro “Um teto todo seu”, de Virginia Woolf, a homenageada desta semana, no mês em que comemoramos o Dia Internacional da Mulher.  

Virginia Woolf, nascida em Kensington, região de Londres, em 25 de janeiro de 1882, foi uma escritora, ensaísta e editora britânica, conhecida como uma das mais proeminentes figuras do modernismo. Estreou na literatura, em 1915, com o romance “The Voyage Out” (“A Viagem”), que abriu o caminho para a sua carreira como escritora e uma série de obras notáveis. Woolf foi membro do Grupo de Bloomsbury e desempenhou um papel de significância dentro da sociedade literária londrina durante o período entre guerras. Seus trabalhos mais famosos incluem os romances “Mrs. Dalloway” (1925), “To the Lighthouse” (“Ao Farol” - 1927), “Orlando: A Biography” (“Orlando: Uma Biografia” - 1928), e o livro-ensaio “A Room of One’s Own” (“Um Teto Todo Seu” - 1929), onde se encontra a famosa citação: “Uma mulher precisa ter dinheiro e um teto todo seu, um espaço próprio, se quiser escrever ficção”.

Quando li “Um Teto Todo Seu”, simplesmente, apaixonei-me pelo livro e pela escritora. O livro, na verdade, é um ensaio baseado em uma série de palestras que ela deu, em outubro de 1928, no Newnham College e Girton College, duas escolas para mulheres na Cambridge University. Nele, Virginia defende que a liberdade econômica traria liberdade de escrita para as mulheres: “Talvez se eu revelar as ideias, os preconceitos que se escondem atrás desse argumento, vocês vejam que têm alguma relação com mulheres e ficção”, escreve. 

Ao falar sobre as limitações e preconceitos que a mulher enfrenta na escrita e na sociedade da época, Virginia faz as seguintes indagações: “Por que os homens bebem vinho e as mulheres, água? Por que um sexo é tão próspero e o outro, tão pobre? Que efeito tem a pobreza sobre a ficção? Quais as condições necessárias para a criação de obras de arte?”. 

Virginia cita no livro as escritoras do século XIX: Jane Austen, as irmãs Brontës e George Eliot, pois, segundo ela, sem estas precursoras, a escrita feminina não teria conquistado, aos poucos, seu espaço: “Pois as obras-primas não nascem de eventos únicos e solitários; são o resultado de muitos anos de pensamento comum, de pensamento coletivo”.

Ao final do livro, Woolf pensa o mundo um século à frente e faz constatações e questionamentos extraordinários: “Daqui a um século... seria mil vezes uma pena se as mulheres escrevessem como os homens, ou vivessem como eles, ou se parecessem com eles, pois se dois sexos é bastante inadequado, considerando a vastidão e a variedade do mundo, como faríamos com apenas um? A educação não deveria aflorar e fortalecer as diferenças em vez das similaridades?”. O interessante é que, quase um século depois, todas estas questões continuam tão atuais quanto relevantes. 

Em 28 de março de 1941, Woolf colocou seu casaco, encheu os seus bolsos com pedras, atravessou os prados em direção ao Rio Ouse, perto de sua casa, e caminhou para a morte. 
 

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