Terça-feira, 21 de julho de 2026
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RENATA DAL-BÓ

01/07/2026 06:00

Uma volta às origens

Semana passada, minha irmã e eu fomos a Juiz de Fora (MG) visitar nosso pai. Era uma viagem que já esperávamos há meses, mas ela acabou se transformando em muito mais do que alguns dias em família. Foi uma viagem de volta às nossas origens.

No próximo 5 de julho, meu pai completa 87 janeiros. Desde que percebemos que viajar já não era tão simples para ele, somos nós que atravessamos o país para estarmos juntos. Se na viagem do ano passado voltamos para casa com o coração apertado diante da rápida evolução do Alzheimer, desta vez encontramos um pai animado, sorridente e com um desejo muito especial: rever irmãos, cunhados e familiares que há muito tempo não encontrava.

Foi impossível não lembrar de uma expressão que ele repetia quando eu e minha irmã éramos crianças. Sempre que chegávamos a Juiz de Fora, ele anunciava: “Agora vamos fazer uma via-sacra.” Era assim que chamava a maratona de visitas aos tios, primos e parentes espalhados pela cidade. Naquela época, eu não entendia por que aquilo era tão importante. Hoje, faria essa mesma via-sacra quantas vezes fosse preciso.

Antes de chegarmos ao destino final, fizemos um providencial pit stop em Mogi das Cruzes. Fomos recebidas com muito carinho pelos nossos tios. Passamos horas reconstruindo a árvore da família, recordando histórias da infância e descobrindo outras que jamais havíamos ouvido. Algumas delas ficaram guardadas entre boas risadas, café passado, pão de queijo, doce de leite e bolos deliciosos.

Já em Juiz de Fora, visitamos tios e primas queridas. Meu pai realizou o desejo de reencontrar pessoas que não via há muitos anos. Foi maravilhoso observar sua alegria. Parecia que, por alguns instantes, o tempo voltava a caminhar para trás.

As conversas com nossas primas Larissa e Josi nos levaram de volta à infância. Cada lembrança surgia por um olhar diferente. Uma completava a história da outra, confirmando que a memória é um grande mosaico: cada pessoa guarda uma peça e, somente quando nos reunimos, conseguimos enxergar a imagem inteira.

Também falamos da fase da vida que todas estamos vivendo. Nossos pais envelheceram. Nós também. Trocamos experiências sobre cuidadoras, consultas, medos e aprendizados. É inevitável perceber a finitude se aproximando de quem sempre foi nosso porto seguro. Mas também é reconfortante descobrir a força que nasce quando compartilhamos esse momento com quem divide a mesma história.

Visitamos ainda minha madrinha, Jucelina, que preparou uma canjica deliciosa simplesmente porque sabia que eu adorava. Mais uma vez pensei em como o amor se manifesta nos detalhes. Há pessoas que se lembram do doce de que gostamos, do apelido da infância, de pequenas coisas que o tempo não apagou. Descobrir que esse amor continua nos esperando é um dos maiores presentes da vida.

Outro grande presente da viagem foi o tempo vivido com minha irmã. Entre uma visita e outra, rimos, conversamos sobre a vida, sobre nossos pais e sobre nós mesmas. Voltamos mais leves, mais próximas e com a certeza de que precisamos repetir esses encontros enquanto ainda podemos.

Na infância, eu achava que a “via-sacra” do meu pai era apenas uma sequência interminável de visitas. Hoje entendo que ele estava nos conduzindo pelo caminho mais importante de todos: o de nunca perdermos o contato com as nossas raízes. Porque são elas que nos sustentam quando o tempo insiste em nos lembrar de que a vida passa depressa demais.

Diário do Sul
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