Sábado, 14 de fevereiro de 2026
Fechar [x]

RENATA DAL-BÓ

17/09/2025 06:00

Ode ao meu pai

No último fim de semana, fui buscar meu pai em Juiz de Fora para passar alguns dias conosco em Tubarão. Há algum tempo descobrimos que ele tem Alzheimer. Essa doença silenciosa que, aos poucos, vai tomando conta da mente, apagando memórias e histórias. 

Ao chegar, muito me entristeceu ver o quanto estava alheio, apático a tudo e a todos. Quem já acompanhou um ente querido nessa travessia sabe: o Alzheimer transforma profundamente a forma como a pessoa se relaciona com o mundo externo — mas isso não significa que ela deixa de se conectar com quem ama. Ainda assim, doeu perceber que ele não conseguia se expressar como antes.

Tentei todos os assuntos com ele: política, que ele adora; histórias passadas, que sempre o encantaram. Mas as respostas vinham monossilábicas, quase ausentes.No avião, a caminho de casa, tive uma ideia. Coloquei uma playlist só com músicas que ele gostava de escutar. Um fone no meu ouvido, outro no dele. A música sempre nos conectou. Desde pequena, nossos melhores momentos tiveram uma trilha sonora: os almoços de domingo, os encontros de família, as viagens. Meu pai tocava violão sem nunca ter estudado uma nota, apenas de ouvido — e que ouvido!

E então começou a transformação.

Com Mercedes Sosa, vi um leve sorriso nascer no canto de sua boca: “El tiempo pasa, nos vamos poniendo viejos. Yo el amor no lo reflejo como ayer…”

Com Caetano, os dedos trêmulos iniciaram um batuque de leve: “Caminhando contra o vento. Sem lenço, sem documento. No sol de quase dezembro. Eu vou, eu vou…”

Às vezes ele fechava os olhos e balançava a cabeça, acompanhando o ritmo: “Viver é melhor que sonhar. Eu sei que o amor é uma coisa boa…”

De repente, uma indagação surgiu em seu olhar, como se os versos fossem pergunta: “O que será que será. Que dá dentro da gente e que não devia. Que desacata a gente, que é revelia…” Eu também não sabia a resposta. 

Segurei sua mão quando veio Chico: “Vai passar nessa avenida um samba popular. Cada paralelepípedo da velha cidade essa noite vai se arrepiar…”. Perguntei se ele se lembrava de tocar tantas vezes essa música no violão. Ele balançou a cabeça, dizendo que sim.

E então seus olhos se arregalaram. Eu sabia: era a nossa preferida.
“Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega o destino pra lá…”

Lá estava ele novamente. Lá estávamos nós, conversando por meio da música. O sorriso de canto, o leve batuque, o brilho no olhar – tudo revelava  sua presença.  Um novo jeito de se comunicar: sem palavras, mas com pequenos gestos que expressavam todo o amor.

Diário do Sul
Demand Tecnologia

Utilizamos cookies e tecnologia para aprimorar sua experiência de navegação de acordo com a nossa Política de Privacidade. FECHAR