Neste fim de semana, li “As Cores do Coração”, de Juliana Pereira, ao mesmo tempo em que ouvia, em audiolivro, “O Perigo de Estar Lúcida”, de Rosa Montero. Um ocupava meus olhos; o outro, meus ouvidos, em momentos diferentes, é claro. E, sem que eu esperasse, começaram a conversar entre si.
À primeira vista, são obras completamente diferentes. Um é romance. O outro, ensaio. Um acompanha uma adolescente autista tentando descobrir quem é e encontrar seu lugar no mundo. O outro investiga por que algumas pessoas sentem uma necessidade vital de criar.
Antes mesmo da história, “As Cores do Coração” já encanta como objeto. As ilustrações, delicadamente produzidas pela própria Juliana, a beleza da diagramação, o cuidado do projeto gráfico... tudo revela uma autora que pensa a arte em cada detalhe.
Depois vem o texto. E que texto. Sensível sem exageros, delicado sem perder a força, conduzido por uma autora que conhece o peso dos silêncios.
Mariana, a protagonista, é uma adolescente autista. Sua percepção do mundo passa pelos sons, pelos cheiros, pelos toques e pelas texturas. Ela sente tudo de forma intensa. O que para muitos passa despercebido, para ela pode ser ensurdecedor, desconfortável ou avassalador. E justamente quando mais precisa dizer o que sente, as palavras parecem lhe escapar.
Ao longo da narrativa, uma frase se repete como um refrão: “As palavras importantes sempre morrem antes de saírem de mim.”
A frase ultrapassa a personagem. Ela fala de todos nós. Quem nunca teve um sentimento grande demais para conseguir expressá-lo? Quem nunca procurou o termo exato que simplesmente não veio? Quem nunca percebeu que justamente o que era mais importante parecia impossível de dizer?
Mariana encontra na pintura a linguagem que sua voz não alcança. As cores passam a dizer aquilo que as palavras não conseguem expressar.
Foi exatamente nesse momento que Juliana Pereira começou a conversar com Rosa Montero.
Enquanto acompanhava a trajetória de Mariana, eu ouvia Rosa Montero refletir sobre a criatividade, sobre escritores, artistas e sobre essa necessidade profundamente humana de criar. Ao reunir histórias de grandes autores e pesquisas sobre imaginação e saúde mental, ela mostra que a criação não nasce apenas do talento. Nasce também da sensibilidade, da inquietação e da capacidade de transformar a própria experiência em linguagem.
As duas autoras, cada uma à sua maneira, pareciam responder à mesma pergunta:
O que fazemos quando as palavras já não bastam?
Juliana responde com as cores. Rosa responde com a escrita. E, no fundo, ambas falam da mesma necessidade humana: criar.
Sempre ouvi dizer que a arte imita a vida. Eu, porém, sempre acreditei que ela faz muito mais do que isso. A arte nos ajuda a compreender a vida. Juliana Pereira e Rosa Montero, cada uma à sua maneira, apenas reforçaram essa certeza. A arte não apaga as cicatrizes, mas lhes dá um sentido. Não elimina os silêncios, mas encontra uma linguagem para eles. Há quem escreva. Há quem pinte. Há quem componha. Há quem dance. Cada um encontra sua maneira de traduzir aquilo que as palavras, sozinhas, não alcançam.
A arte é o idioma da alma.