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RENATA DAL-BÓ

20/03/2024 06:00

Carolina Maria de Jesus – A mulher que transformou a miséria e a fome em poesia

Nossa homenageada da semana, em comemoração ao Mês da Mulher, nasceu em 1914, na cidade de Sacramento, interior de Minas Gerais, e é considerada uma das primeiras escritoras negras do Brasil. Em 1958, o jornalista Audálio Dantas, que trabalhava na revista “O Cruzeiro”, foi fazer uma reportagem sobre a realidade da favela no Canindé e conheceu Carolina Maria de Jesus, que o levou até seu barraco e mostrou a ele vários cadernos de poesia, romances e diários que escrevia. Carolina viveu boa parte de sua vida nesta favela que, na década de 50, começava a se expandir na beira do rio Tietê, em São Paulo. Mulher, negra, semianalfabeta e mãe solteira, sustentava a si e a seus três filhos como catadora de papéis. Em 1960, com a ajuda de Dantas, Carolina conseguiu publicar seu primeiro livro, com o nome “Quarto de Despejo – Diário de uma favelada”, que fez um enorme sucesso e chegou a ser traduzido para catorze línguas e distribuído em 40 países. 

Em seu diário, Carolina narra a miserável realidade da favela, a qual se refere como “senzala da cidade”, onde sentia-se como um “objeto fora de uso, digno de estar em um quarto de despejo”.

Depois de passar o dia catando papéis, escrevia em busca de paz: “Cheguei em casa, aliás no meu barracão, nervosa e exausta. Pensei na vida atribulada que levo. Cato papel, lavo roupa, permaneço na rua o dia todo. E estou sempre em falta. A Vera não tem sapatos. E ela não gosta de andar descalça”. 

Ao lado da miséria, outra grande personagem de “Quarto de Despejo” é a fome. Em sua rotineira busca pela sobrevivência no lixo da cidade, Carolina descobriu que as coisas todas do mundo – o céu, as árvores, as pessoas, os bichos – ficavam amarelas quando a fome atingia o limite do suportável. Carolina viu a cor da fome, que chamava de “Amarela”. “É preciso conhecer a fome para saber descrevê-la”, escreveu.

Quando publicou “Quarto de Despejo”, Carolina ficou conhecida em todo o país e também no exterior. No entanto, a fama foi passageira, com a publicação do segundo diário “Casa de alvenaria – Diário de uma ex-favelada”, ela começou a ser esquecida e a aconselharam a parar de escrever, mas Carolina dizia que literatura para ela não era algo que tivesse optado, mas, sim, uma condição de vida: “Quem não tem amigos, mas tem livros, tem uma estrada”.

Ao narrar o sofrimento de uma favelada relegada à situação mais desesperadora e humilhante de vida, Carolina Maria de Jesus não é uma escritora de ontem, é de hoje. 

Diário do Sul
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