Na semana passada, durante o lançamento de “Caderno de Anotar a Vida”, em Tubarão, olhei para tantas pessoas queridas reunidas — leitores, amigos e familiares — e pensei no quanto aquele momento também merecia ser guardado.
O título vem do livro “A Casa dos Espíritos”, da escritora chilena Isabel Allende. Clara, personagem do livro, tinha o hábito de registrar a vida em cadernos: acontecimentos importantes, episódios da família, lembranças e pequenas coisas do cotidiano. Muitos anos depois, sua neta Alba recorre a esses registros para reconstruir a memória da família e compreender a própria história.
Quando reli as crônicas que escrevi entre 2015 e 2018 para fazer a curadoria do livro, percebi que, sem me dar conta, eu também vinha fazendo isso. Fui registrando meus filhos crescendo, conversas dentro de casa, viagens, livros, encontros, alegrias, medos e inquietações. Pedaços da vida.
Antes da releitura, pensei: será que vou gostar do que escrevi? Vou olhar para aquela Renata de dez anos atrás e achar que hoje teria escrito tudo diferente?
É claro que algumas coisas eu escreveria de outra maneira. A escrita amadurece junto com a gente. Mas o mais bonito foi perceber que me reconheci naqueles textos. A técnica pode mudar, o olhar pode se ampliar, mas existe um fio que atravessa o tempo e continua ligando aquela mulher à mulher que sou hoje.
Com tudo acontecendo tão rápido, acho que a crônica se torna ainda mais necessária. Ela nos faz parar um pouco, olhar em volta e perceber que há muita coisa acontecendo onde parece não estar acontecendo nada.
Durante o lançamento, ao falar de meus filhos, não contive a emoção. O livro é dedicado a eles e aos meus futuros netos. Gosto de pensar que, daqui a muitos anos, poderão abrir estas páginas e encontrar um pouco de quem fomos, da família que construímos, das coisas que vivemos. Meus textos serão minha maior herança.
Quem faz um livro sabe quantas pessoas estão por trás de cada página. Por isso, quero agradecer a todos que, de alguma forma, colaboraram para que este livro ficasse exatamente como eu sonhei.
À Berenice Sica, que cuidou da revisão com o olhar atento. Ao Cesar Augusto Vitelli, que acolheu este projeto com carinho, e à equipe da Copiart, pelo cuidado para que o livro chegasse às minhas mãos exatamente como eu havia imaginado.
Aos meus confrades Ramires Sartor Linhares e José Warmuth Teixeira, também companheiros de página no Diário do Sul, pelos prefácios tão generosos. A Godofredo de Oliveira Neto, Urda Alice Klueger e Ivonita Di Concílio, por emprestarem suas palavras e seu afeto à contracapa deste livro.
E ao professor Sérgio Santana, à coordenadora Daniela Fraga e aos alunos do Colégio Santíssimo Sacramento, que deram outra vida às minhas crônicas naquela noite. Ouvir meus textos na voz deles foi emocionante. Um daqueles pequenos grandes momentos que a gente gostaria de guardar para sempre.
À minha família, aos amigos, aos leitores e a todos que estiveram comigo naquela noite. Um livro nasce quando é escrito, mas completa seu caminho quando encontra um leitor. Espero que estas crônicas despertem em quem as ler a vontade de olhar com mais atenção para a própria história. E, quem sabe, começar também o seu próprio caderno de anotar a vida.