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RENATA DAL-BÓ

26/08/2026 06:00

Verdades inventadas

No próximo dia 1º de setembro, estarei em Florianópolis para um encontro literário com Godofredo de Oliveira Neto, escritor catarinense, membro da Academia Brasileira de Letras e da Academia Catarinense de Letras. Ele participa da programação que marca os 110 anos do fim da Guerra do Contestado e, também, os 30 anos de seu romance O Bruxo do Contestado. A obra estará no centro da “Conversa de Escritores”, ao lado do jornalista Moacir Pereira.

A ocasião me fez voltar ao livro e, principalmente, a uma lembrança que me marcou da primeira vez que o li. Antes mesmo de a história propriamente começar, Godofredo apresenta uma “Nota ao leitor” na qual conta que, durante a demolição de um antigo palacete em São Paulo, teria sido encontrado um caderno escrito por Tecla, personagem do romance.

Lembro-me de que, na época, acreditei piamente que aquele manuscrito era verdadeiro. Só mais tarde descobri que o caderno também era literatura. 

Anos depois, ao ler Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves — hoje também integrante da Academia Brasileira de Letras —, encontrei no prólogo a história de um antigo manuscrito descoberto em Itaparica, na Bahia. E, mais uma vez, acreditei. Só recentemente, ouvindo Ana Maria falar sobre o romance, descobri que aquele documento era pura invenção. 

Curiosamente, dois dos melhores livros que já li construíram uma narrativa tão convincente, capaz de atravessar a fronteira entre realidade e ficção.

Pesquisando, descobri que “o manuscrito encontrado” é um antigo recurso literário. Cervantes já brincava com esse artifício em Dom Quixote, ao atribuir parte da narrativa a um manuscrito de autoria fictícia. O escritor cria um documento aparentemente verdadeiro e entrega ao leitor a sensação de estar diante de algo autêntico. Nos dois romances, o artifício ganha ainda mais força porque suas histórias mergulham em capítulos profundos e dolorosos da memória brasileira — a escravidão, o racismo, a resistência e a Guerra do Contestado.

Godofredo disse certa vez que “a literatura chega onde a História às vezes não chega”.

Os manuscritos podem nunca ter existido. Mas, quando a literatura é grande, há verdades inventadas capazes de nos levar ainda mais perto daquilo que realmente aconteceu.

Diário do Sul
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