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RENATA DAL-BÓ

12/08/2026 06:00

A violência que atravessa o tempo

No último fim de semana, estive mergulhada nas revisões finais do meu oitavo livro e o segundo de crônicas, “Caderno de Anotar a Vida”. A obra reúne textos publicados no Jornal Diário do Sul entre 2015 e 2018. Ao relê-los, fiquei impressionada ao perceber como algumas dessas crônicas, embora escritas há mais de uma década, continuam dialogando fortemente com o presente.

“Violência contra a mulher: uma triste realidade”, publicada originalmente em dezembro de 2015, é uma delas. Em pleno Agosto Lilás, mês dedicado à conscientização e ao enfrentamento da violência contra a mulher, pareceu-me especialmente oportuno trazê-la novamente a estas páginas:

“Ainda hoje, quando nos reunimos para falar sobre o papel da mulher na sociedade, a conversa inevitavelmente escorre para um tema que insiste em não sair da pauta: a violência. Mudaram-se os séculos, alteraram-se os discursos, ampliaram-se os direitos — e, no entanto, dentro de muitas casas, o medo continua morando.

É triste constatar o fato de que inúmeras mulheres que sofrem violência doméstica não denunciam seus agressores. Mas ainda mais triste é perceber que a violência raramente começa com o primeiro tapa. Antes dele, vêm o controle, a humilhação silenciosa, o isolamento, a desvalorização diária. O medo não nasce do nada; ele é cultivado. E cresce alimentado pela dependência emocional e financeira, pela vergonha e, sobretudo, pela sensação de impotência.

A violência doméstica tem essa perversidade: ela acontece entre paredes que deveriam abrigar afeto. Muitas mulheres tornam-se especialistas em inventar explicações. O braço quebrado foi um tropeço. O olho roxo, uma distração. O silêncio, uma escolha. Aprendem a maquiar a dor e a proteger o agressor, enquanto tentam proteger a si mesmas do julgamento do mundo.

Os números confirmam aquilo que os relatos já denunciam há muito tempo: milhões de mulheres já sofreram algum tipo de violência dentro de casa. E, em muitos casos, o desfecho é trágico. A cada dia, vidas são interrompidas por homens que confundem amor com posse, convivência com domínio, relação com poder.

O mais assustador é perceber que a violência não escolhe classe social, escolaridade ou religião. Ela atravessa fronteiras invisíveis e se instala onde encontra silêncio.

Por isso, falar sobre o assunto é romper esse silêncio. É iluminar aquilo que por tanto tempo foi mantido na penumbra. Não se trata apenas de denunciar agressões físicas, mas de reconhecer que nenhuma forma de submissão deve ser naturalizada. Nenhuma mulher deve acreditar que merece menos respeito, menos dignidade, menos liberdade.

A violência contra a mulher não é um problema privado. É uma ferida social.

Enquanto houver uma mulher inventando desculpas para justificar o injustificável, ainda estaremos falhando como sociedade. Enquanto houver medo dentro de casa, a luta não terminou.

Que a vergonha mude de lado. Que o silêncio se transforme em voz. E que nenhuma mulher precise usar maquiagem para esconder os hematomas que jamais deveriam existir.”

Diário do Sul
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