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RENATA DAL-BÓ

29/07/2026 06:00

Quando o corpo grita

Na semana passada, precisei parar. Uma dor de cabeça lancinante, que aumentou ao longo dos dias, fez com que eu interrompesse compromissos, diminuísse o ritmo e procurasse ajuda.

Sentia dor nas têmporas, pressão na cabeça e nos ouvidos. Fui ao neurologista imaginando que pudesse ser enxaqueca, mas, depois do exame clínico, veio o diagnóstico: tensão. Segundo o médico, eu provavelmente estava dormindo com a mandíbula cerrada. Mesmo durante o sono, meu corpo permanecia em vigília.

Assim como a dor, a palavra “tensão” ficou ecoando na minha cabeça. Afinal, o corpo também fala. E, muitas vezes, grita aquilo que sentimos por dentro, mas ainda não conseguimos reconhecer, compreender ou colocar para fora.

Coincidentemente, naquela mesma semana recebi de uma amiga um texto sobre o meu Arcano de Nascimento. Confesso que conheço pouco sobre o assunto. Ainda assim, algumas questões me fizeram refletir.

Entre as perguntas apresentadas, uma parecia ter sido escrita especialmente para mim: “Como posso transformar minha energia em criação, e não em tensão?”

Fiquei pensando sobre isso. Procurar um médico, investigar os sintomas e seguir as orientações adequadas é sempre o primeiro passo. Mas, depois disso, é necessário olhar para dentro e perguntar: o que está acontecendo comigo? O que não estou conseguindo dizer? Que situações estão me consumindo silenciosamente? Em que momento a força que me move começou a se transformar em peso?

As respostas nem sempre aparecem de imediato e, por isso, frequentemente precisamos de ajuda para encontrá-las. Essa ajuda pode vir da medicina, da psiquiatria, da terapia, da psicanálise, da espiritualidade, de uma prática mística, de uma conversa sincera ou da arte. Não existe um único caminho para compreender o que sentimos.

No meu caso, a escrita sempre foi uma dessas passagens. E, convenhamos, ser casada com um psiquiatra e psicanalista também ajuda.

Ao escrever, consigo retirar de dentro aquilo que permanece confuso, apertado, sem nome. Colocar no papel é uma maneira de colocar para fora, de olhar para a dor de outro ângulo e transformar sentimentos em linguagem.

De certa forma, é também o que acontece na terapia ou na psicanálise. Ao nomear uma angústia, ela não desaparece como num passe de mágica, mas pode deixar de nos dominar da mesma forma. A palavra abre espaço e, onde havia apenas aperto, pode nascer entendimento.

A dor passou. Felizmente. Mas deixou um recado. Agradeço à amiga que, com carinho, me enviou aquela leitura. Suas palavras chegaram até mim como uma mão estendida e trouxeram a pergunta de que eu precisava naquele momento.

Nem toda pausa representa fraqueza. Força também é perceber os próprios limites, pedir ajuda e permitir que aquilo que está preso encontre uma saída. Afinal, quando damos voz ao que sentimos, o corpo já não precisa gritar por nós.

Diário do Sul
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