Profissional transforma consertos em alternativa econômica e sustentável, preservando técnicas artesanais e legado
Em meio à pressa do consumo atual, onde produtos são facilmente substituídos, há quem trabalhe no sentido oposto: prolongar o tempo de uso, recuperar histórias e dar nova vida ao que já existe. Esse é o cotidiano do sapateiro, um profissional que atua nos bastidores, mas que desempenha papel essencial na rotina de muitas pessoas.
Natural de Tubarão, Edvaldo Marcos construiu sua trajetória a partir de uma escolha que também carrega significado familiar. Após experiências em diferentes áreas, foi no início dos anos 1990 que decidiu seguir o caminho do pai, Evaldo Marcos (in memoriam), iniciando na sapataria da família. “Resolvi seguir a profissão do meu pai e me juntei a ele aqui na cidade, e assim já faz 36 anos que sigo dando continuidade ao legado”, afirma.
A ligação com o serviço começou antes mesmo da decisão profissional. O pai atuou em fábricas de calçados em Joinville e, posteriormente, passou a trabalhar com consertos em Tubarão. A partir desse movimento, Edvaldo passou a acompanhar de perto a rotina da sapataria, aprendendo na prática os detalhes do trabalho.
Diferente de outras áreas, a sapataria exige conhecimento técnico, precisão e sensibilidade para lidar com diferentes materiais e necessidades. Ao longo dos anos, Edvaldo acompanhou as mudanças do setor, especialmente com a chegada de novos insumos e a transformação no perfil dos produtos. Ainda assim, o princípio do trabalho permanece o mesmo: restaurar, adaptar e prolongar a vida útil dos itens.
Essência
Na rotina da sapataria, cada serviço carrega uma particularidade. Desde trocas de solas e costuras até ajustes mais específicos, como adaptação de palmilhas ou mudanças estruturais no calçado, o trabalho exige atenção aos detalhes. “Seja para restaurar um sapato ou dar uma nova vida ao tênis, estamos aqui para ajudar”, resume.
Mesmo com a facilidade de adquirir novos produtos, o conserto segue sendo uma alternativa buscada por muitos clientes. Para Edvaldo, essa escolha envolve não apenas economia, mas também consciência. “Consertar calçados é uma forma inteligente de valorizar o que é durável, economizar dinheiro e reduzir o desperdício”, explica.
Se por um lado a demanda permanece, por outro, a profissão enfrenta desafios para se manter ao longo do tempo. A falta de interesse das novas gerações é um dos principais pontos de atenção. Ainda assim, na família Marcos, a continuidade já está em andamento: o filho de Edvaldo assumiu a administração da sapataria e pretende seguir com o trabalho iniciado pelo avô.
As mudanças na indústria também exigem constante adaptação. Materiais sintéticos, novas formas de produção e diferentes padrões de consumo impactam diretamente o dia a dia do profissional, que precisa atualizar métodos e ferramentas sem perder a essência do trabalho artesanal.
Além disso, Edvaldo aponta a valorização ainda limitada das profissões manuais como um desafio. “Existe um certo preconceito com profissões manuais, como se fossem inferiores, quando na verdade exigem técnica, experiência e muita responsabilidade”, avalia.
Para ele, o trabalho vai além do conserto: envolve também preservar algo que tem valor para o cliente.