Aos 57 anos, a dona de casa Miriam Duarte Borges, de Laguna, tinha um sonho nutrido desde a infância e que só agora está conseguindo realizar: saber ler e escrever. Para isso, não pensou duas vezes quando finalmente teve a oportunidade de estudar e agora está, literalmente, aprendendo o be-a-bá, como nas antigas cartilhas.
Criada em uma família com quatro filhos, pela mãe viúva, não teve na época condições da estudar. O tempo passou, ela teve duas filhas (uma já falecida) e as dificuldades só aumentaram, já que, sozinha, ela precisava sustentar a família. Trabalhou com limpezas domésticas e na pesca e limpeza de camarão. Agora, com a filha adulta, ela decidiu que não havia mais motivo para esperar e foi até a Escola de Educação Básica Luís Pacheco dos Reis, de Pescaria Brava, onde mora, pedir para ser alfabetizada.
De acordo com a diretora da escola, Renata Brunato Freitas, ela chegou à escola com um pedido impossível de ser negado. “Ela me disse que queria muito aprender a ler porque não queria mais pegar o ônibus errado. Foi o exemplo mais singelo que utilizou e eu, como educadora, não poderia lhe negar este direito de realizar um sonho tão importante e digno”, conta.
Renata disse que conseguiu que ela tivesse aulas de reforço sozinha na escola e que algumas atividades fossem realizadas junto com a turma do primeiro ano do ensino fundamental. “Como hoje a alfabetização é de uma forma diferente, ela precisava ter aulas ainda da forma antiga, como das cartilhas, no be-a-bá mesmo. E está sendo assim há um mês. Mas algumas atividades ela realiza junto com a turminha dos pequenos, que estão adorando e se sentindo ainda mais motivados. E, consequentemente, a motivando também. Ela tem muita força de vontade, o que é fundamental, e nossa meta é que até dezembro ela já esteja lendo e escrevendo”, afirma.
“Eu queria estudar e a minha diretora Renata foi uma bênção na minha vida. Ela disse que eu ia sair do analfabetismo e, se Deus quiser, eu vou sair. Eu estou sabendo fazer as primeiras letras. Pra mim, tudo é muito diferente. Olho as coisas e não sei ver nada. Eu estou aprendendo direitinho. Sou uma pessoa que não sei ler, mas tenho bom gosto na vida com as coisas boas. Eu quero ler um bom livro. Ler o que está escrito. Às vezes, eu vou nas lojas comprar e tenho dificuldades porque as pessoas não têm paciência comigo, porque assino meu nome copiado da minha identidade e demora. Eu quero saber ver um horário no relógio para tomar meus remédios. Mas agora, se Deus quiser, vou aprender. Mas tudo ainda é muito novo. Eu não tenho vergonha de sentar com as crianças e aprender com elas. Tenho muita força de vontade e estou muito feliz”, comemora Miriam.
Analfabetismo gera exclusão
O Brasil ainda tem 11,3 milhões de analfabetos entre a população de 15 anos ou mais — o número corresponde a 6,8% dessa população. O dado diz respeito ao cenário identificado em 2018 e apresentou queda de 0,1 ponto percentual em relação a 2017 — o que significa 121 mil analfabetos a menos — quando o país tinha 6,9% das pessoas nessa situação. O analfabetismo ainda é preocupante pela questão da exclusão social do que é ser uma pessoa analfabeta. Segundo a filha de Miriam, Cristina Duarte, a mãe está feliz por estar, finalmente, conseguindo aprender a ler e a escrever. “Eu queria já ter ensinado pra ela, mas uma escola é o mais indicado, porque tem todas as técnicas corretas. Ela está feliz e cheia de planos, inclusive, de tirar carteira de motorista. Era muito triste ver minha mãe passar por situações que a deixavam com vergonha por não saber ler. Ela sofreu bullying mesmo em alguns lugares”, lembra. “Mas agora ela disse que tudo vai mudar para melhor”, completa, dizendo que a mãe sempre a incentivou a estudar e concluir seus estudos. “Ela sempre me disse que me proporcionaria o que não pode ter”, comenta.
Micheline Zim