Dado alarmante é do Observatório da Violência, da Assembleia Legislativa
Histórias interrompidas, vozes caladas e famílias devastadas. Em Santa Catarina, a violência contra a mulher deixou de ser um dado estatístico distante para se tornar um retrato doloroso e repetitivo da realidade. Por trás de cada número, existe uma vida, uma trajetória e um pedido de socorro que, muitas vezes, não chegou a tempo.
De acordo com dados do Observatório da Violência Contra a Mulher, da Assembleia Legislativa, entre 2020 e 2025 foram registrados 445.225 crimes de violência contra a mulher no Estado, o que representa, em média, 198 casos por dia, ou mais de oito por hora. A idade média das vítimas gira em torno dos 36 anos.
O Observatório foi implantado em 2021 com o objetivo de compilar dados, analisar a violência, subsidiar a formulação de políticas públicas e criar uma base unificada para monitorar a violência contra a mulher no Estado.
A coordenadora do observatório da Violência Contra a Mulher da Alesc, deputada Luciane Carminatti, alerta para a dimensão humana por trás dos números. “Quando olhamos para esses dados, não podemos enxergar apenas estatísticas. Cada registro representa uma mulher que sentiu medo dentro da própria casa. Não podemos naturalizar quase 200 casos por dia. Não é normal. É uma emergência social”.
Luciane ainda enfatiza que o ciclo da violência mantém um padrão. “Na maioria dos casos, o agressor é alguém de dentro de casa: companheiro, ex-companheiro, namorado ou marido. A violência não surge de repente. Ela começa no controle, na humilhação, na ameaça, na ideia de posse. É fruto de uma cultura machista que naturaliza o poder do homem sobre a vida da mulher”.
Falhas
A deputada também alerta para um dado preocupante. “Quando a mulher decide romper o silêncio e pedir ajuda, o Estado precisa estar presente e ativo, mas ainda temos muitas falhas. Santa Catarina é o segundo estado do Brasil com maior taxa de descumprimento de medidas protetivas: uma em cada quatro ordens judiciais é desrespeitada. Medida que não é fiscalizada não protege ninguém.”
Entre 2020 e 2025, 329 mulheres foram assassinadas. Em grande parte dos casos, o agressor já fazia parte da vida da vítima. Outro indicador alarmante é o silêncio que antecede a tragédia: 85,7% das vítimas de feminicídio não tinham boletim de ocorrência contra o autor.
Números apontam padrão de reincidência
Por outro lado, 71,4% dos agressores já possuíam algum registro policial, evidenciando um padrão de reincidência e risco previsível. Em 2026, considerando os dados parciais do ano, já foram registrados 6.983 casos de violência contra a mulher, 3.107 ocorrências de ameaça e 1.759 de lesão corporal.
Cinco feminicídios já foram contabilizados e, em 80% deles, não havia registro prévio da vítima contra o autor — um retrato doloroso da subnotificação e do medo que ainda silencia mulheres. Até a data desta publicação, quatro mortes de mulheres foram registradas apenas no mês de fevereiro.
O Ministério Público de Contas de Santa Catarina também reforça que o enfrentamento à violência de gênero exige vigilância permanente. “A violência contra a mulher não é um fenômeno isolado, mas um problema estrutural. Nenhuma mulher deve viver sob ameaça e o direito a uma vida digna é inegociável”, afirmou a procuradora-geral Cibelly Farias.
A defensora pública e coordenadora do comitê gestor do OVM/SC, Anne Teive Aura, ressalta o papel do acesso à Justiça. “Muitas vezes, esse silêncio está relacionado ao medo ou ao desconhecimento sobre seus direitos. É importante saber que existem instrumentos legais, como as medidas protetivas de urgência. A Defensoria Pública é um dos espaços de acolhimento gratuito.”
Crescimento
Os números das medidas protetivas reforçam o tamanho da urgência: somente em 2025, Santa Catarina registrou 31.655 medidas protetivas requeridas. Em janeiro de 2026, já foram 3.223 pedidos. Em 2020, foram 16.257 medidas requeridas; em 2023, avançou para 28.167; e em 2024, alcançou 30.234.
O crescimento contínuo indica não apenas a dimensão da violência, mas também maior conscientização e fortalecimento das redes de proteção, que encorajam mulheres a romper o silêncio antes que a violência escale.