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Artigo: Sentinela do Direito

09/11/2019 06:00

Sara Fernandes Goulart

Bacharel em Direito, servidora pública efetiva do Poder Judiciário



Vejo o Poder Judiciário como uma sentinela. O último soldado, no último posto, no local mais longínquo do país. O último recurso para quem procura ajuda.


Mas o necessitado, muitas vezes, quer jogar o peso de seus problemas sobre a sentinela, delegando a ela o fardo de lutar sozinha.


É o que ocorre com o Judiciário. As partes, ao proporem o processo, creem que a “Justiça” resolverá tudo sozinha, esquecem suas responsabilidades e deveres como adultos e cidadãos que são.


É necessário que haja mudança e conscientização da população não apenas pelo viés da diminuição da litigiosidade, mas pela imprescindibilidade de amadurecimento, de cada um sentir-se responsável por sua própria vida e tomar as rédeas.


É preciso deixar de lado o assistencialismo estatal, para cada qual tornar-se assertivo na resolução de seus problemas, encontrando no outro o mesmo sentimento de pessoa proba e adulta, pronta para encontrar uma solução para o litígio.


Falo isso porque recentemente passei por uma situação que me fez ver o Judiciário de outra forma, embora já trabalhe como servidora há mais de sete anos.


O caso foi o seguinte: levei um vestido longo de festa para lavar em uma lavanderia da cidade onde moro: Tubarão/SC. Fui buscar o vestido na data marcada, mas a empresa não havia concluído o serviço e pediu para que eu voltasse na semana seguinte.


Como combinado, voltei na outra data. Peguei o vestido e o guardei no armário. Algum tempo depois, provei o vestido para ir a outro evento, qual foi minha surpresa quando vi que a bainha da frente do vestido havia sido cortada e refeita. O vestido estava um palmo menor na frente! Atrás, ele estava do mesmo tamanho!

Analisando melhor a roupa, percebi que a pontinha da bainha estava queimada. Entendi o ocorrido: ao passar o vestido, queimaram a bainha, e por isso cortaram a parte queimada, refizeram a bainha e entregaram-me como se nada tivesse acontecido.


Voltei à lavanderia, expliquei a situação, mas a empresa negou o erro, afirmou que não tinha máquina de costura (como se não fosse possível levar o vestido em uma costureira).


Curiosamente, meu cadastro desapareceu do sistema, e não havia prova nenhuma de que o vestido havia sido lavado ali.


Insisti que eu deveria ser ressarcida pelo dano. Disse que é compreensível que a lavanderia estrague alguma roupa no processo de lavagem, mas que quando algo assim ocorre é necessário ter boa-fé, apresentar o problema ao cliente, pedir desculpas e indenizar o prejuízo; e não mentir e esconder o problema. Ainda assim, nada do que eu disse foi levado em consideração.


Vi-me em uma situação complicada: extrajudicialmente, não consegui resolver o problema, e não posso procurar a sentinela (Judiciário) porque meu cadastro na lavanderia foi apagado.


Devo eu reclamar da sentinela? Não, em minha opinião, meu litígio com a lavanderia é fruto de adultos irresponsáveis, incapazes de admitir e corrigir seus equívocos.


São pessoas assim que, de pequenos a grandes erros, levam litígios desarrazoados ao Judiciário, impondo à sentinela a resolução de problemas insolúveis pelo Estado.


A sociedade como um todo somente progredirá quando cada um fizer sua parte, assumindo seus erros e propondo-se de forma madura a resolvê-los.


Não esperemos do Estado. Não esperemos do Judiciário. Não esperemos encontrar a sentinela no último posto. Sejamos nós mesmos a resolução de nossos problemas, de forma madura e proba, de forma que possamos nos elevar e fortalecer como seres humanos realmente moralizados.

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