Márcio Dal-Bó | Psiquiatra
Gostaria de lembrar aos hercilistas e à nossa SAF que domingo não foi apenas uma vitória. Foi um daqueles dias em que o futebol faz o que tem de mais bonito: faz bem à alma e aproxima o presente das lembranças.
O glorioso Leão do Sul venceu o Tubarão por 2 a 0, no Monumental da Vila, como era chamado o campo do Ferroviário, e praticamente selou seu retorno à Série A do Campeonato Catarinense. Agora é lutar até o fim, respeitando o adversário, mas com garra. Não vamos deixar esse título escapar.
Enquanto acompanhava a partida, minha memória voltou a 1970. Eu tinha nove anos quando fui, pela primeira vez, a uma decisão do Campeonato Catarinense. Estavam comigo meu pai, Bruno Dal-Bó, e meu tio Delírio Falchetti, pai de meu primo Olavio Falchetti, ex-prefeito de Tubarão, ex-presidente do Hercílio Luz e que se recupera de um infarto.
Naquele dia, o Ferro-Luz ficou em 0 a 0, e o Ferroviário foi campeão. Lembro-me da grande bandeira vermelha e preta, do Ferroviário, e da charanga deles vibrando no antigo Morro da Navalha. Voltamos para casa em silêncio, tristes, como só um menino apaixonado pelo futebol e pelo pai consegue estar.
Quis o destino que, 56 anos depois, eu visse meu time devolver, no mesmo estádio, uma alegria inesquecível.
Sou hercilista desde os cinco anos, quando entrei pela primeira vez no Aníbal Costa, na garupa da bicicleta de meu pai, em 1966. Meu nome, Márcio, foi escolhido por meu pai em homenagem a um jogador do Hercílio que marcara três gols poucos dias antes do meu nascimento. Meu nome nasceu do amor de meu pai pelo filho que chegava e pelo clube que ele amava. É impossível pensar no Hercílio sem pensar no meu pai.
Assisti ao jogo com minha esposa e minha filha Mariana. Meu filho Bruno, que recebeu esse nome em homenagem ao avô, estava no estádio. Hoje, várias gerações de hercilistas vivem em minha família e em tantas outras.
Enquanto o Leão vencia, muitas histórias “jogavam juntas”: meu pai, os domingos no Aníbal Costa, minha família de origem e a que construí. Minha mulher sempre pergunta: “Por que tanto sofrimento e tanta paixão pelo Leão?” Respondo que o Hercílio e o futebol nunca falam apenas de uma partida. Falam de pessoas que sonham juntas.
Como psiquiatra e psicanalista, aprendi que a memória não existe para nos prender ao passado, mas para dar sentido ao presente. Há lembranças que precisam ser transformadas, especialmente as que perpetuam sofrimento. Mas há memórias amorosas que merecem ser preservadas, pois sustentam nossa identidade, fortalecem vínculos e mantêm vivas as pessoas, as famílias, as cidades, os clubes e as paixões.
Domingo, revi o menino de nove anos deixando o Monumental da Vila de mãos dadas com o pai, triste pela derrota. Desta vez, foi como se voltássemos para casa felizes. E tenho a impressão de que, onde quer que esteja, meu pai sorriu ao ver o glorioso Leão do Sul lembrar que algumas tradições nunca morrem.
Lembro que a SAF é importante. Sou favorável ao seu sucesso e ao seu crescimento. Isso tem a bênção de gerações de hercilistas. Mas peço que não se esqueçam de que o Hercílio Luz é mais do que uma empresa. É uma história construída por gerações, um patrimônio afetivo que precisa ser preservado, e esse patrimônio é importante para o sucesso da SAF.
O sucesso da SAF e o do Hercílio caminham juntos. Um depende do outro. E dá-lhe, Leão!