Quarta-feira, 14 de outubro de 2026
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RENATA DAL-BÓ

30/09/2026 06:00

Carta ao meu amor

Álvaro de Campos escreveu que todas as cartas de amor são ridículas. “Não seriam cartas de amor se não fossem ridículas.” Pois bem. Peço licença a Fernando Pessoa, ao seu heterônimo e também aos leitores para escrever a minha.

Para além das cartas, penso que todas as histórias de amor são um pouco ridículas. Vistas de fora, parecem banais: duas pessoas se encontram, apaixonam-se, fazem planos, casam, têm filhos, atravessam os anos. Quantas histórias já não começaram assim? Com a nossa não foi diferente.

Há mais de trinta anos, eu estava sobre a ponte Nereu Ramos, em Tubarão, quando você me pediu em casamento. Ao fundo, tocava Nessun dorma, ária da ópera Turandot: “Tu pure, o Principessa...”

Naquele dia eu estava completamente apaixonada e queria muito que nossa história desse certo. Queria casar contigo, construir uma família, ter filhos, cachorros, uma casa cheia. E, quem sabe, vivermos felizes para sempre como nos contos de fadas. Ou, sendo um pouco mais realista, como escreveu Vinícius, que o amor fosse infinito enquanto durasse.

O que eu não sabia era que, trinta anos depois, continuaria querendo exatamente a mesma coisa. É claro que não somos mais aqueles dois sobre a ponte. Nestes anos todos, existiram muitos Márcios e muitas Renatas. Mudamos de ideias, certezas e sonhos. Amadurecemos, erramos, acertamos. A vida foi nos transformando.

Hoje nosso amor tem muitos outros nomes: respeito, admiração, companheirismo, encanto, cuidado. E, principalmente, paz. Ficar ao seu lado é uma paz para o meu coração.

A vida foi muito generosa conosco, é verdade. Mas nós também fizemos por onde. Uma história de trinta anos não se sustenta se aquele amor do começo não for cultivado. É preciso escolher estar ao lado do ser amado todos os dias. Continuar admirando, conversando, rindo, fazendo planos. E nós fizemos isso.

Construímos a família que sonhamos. Vieram Carol, Bruno e Mariana. Quando penso nos nossos filhos, percebo que eles são muito mais do que fui capaz de sonhar sobre aquela ponte. Vê-los crescer, fazerem suas escolhas, buscarem seus sonhos e seguirem seus caminhos tornou a nossa vida ainda mais completa.

Neste fim de semana, comemoramos nossos trinta anos cercados pela família: filhos, irmãos, cunhado, genro, primos, tias. Pessoas que fazem parte da nossa história e cuja presença tornou aquele momento ainda mais especial.

Trinta anos depois, havia ali muito mais do que nós dois comemorando uma data. Havia uma história inteira reunida à nossa volta.

E eu senti uma felicidade imensa. Daquelas que também podem parecer ridículas.

Sempre te disse que quero ficar bem velhinha ao seu lado. Quero continuar vendo nossos filhos realizarem seus sonhos, conhecer nossos netos, reunir a família e contar para eles nossa história.

Quero olhar para você daqui a muitos anos e ainda reconhecer, naquele senhor velhinho, o rapaz que me pediu em casamento sobre uma ponte.

Então, meu amor, esta é a minha carta de amor. E, como escreveu Álvaro de Campos:  

“As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser Ridículas.”  

Eu te amo pelo homem que você era naquela ponte, pelo homem que foi durante todos esses anos e pelo homem que ainda será ao meu lado.  

Quero envelhecer com você. Quero a sua mão na minha. Quero essa paz no coração. Quero continuar sendo feliz assim. Ridiculamente feliz ao seu lado.  

Te amo infinito.

Diário do Sul
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