“Olá, eu já consigo me comunicar. E você?”
“Eu também. Quem é você?”
“Eu sou o seu irmão gêmeo.”
“E onde é que nós estamos?”
“Estamos no interior do útero da nossa mãe, essa que está aí por fora.”
“E o que estamos fazendo aqui?”
“Estamos esperando pelo momento de nascermos. Seremos expelidos desta nossa casa e iremos lá para fora viver a nossa vida mundana, dando adeus a esta mordomia.”
“Mas como iremos viver e nos desenvolver sem recebermos o alimento que ela nos envia através do seu sangue?”
“Acontece que ela tem muitos recursos: um par de mamas nos proporcionará um saudável alimento, bem mais gostoso do que este que recebemos e que não passa por nossas bocas.”
“Eu estou notando que nós somos diferentes...”
“É porque eu sou menino e você é menina. Mas você é muito mais bonita do que eu sem esta penquinha que eu tenho aqui embaixo.”
“Nossa mãe nos gerou sozinha?”
“Não, teve uma pequena, mas importante contribuição do nosso pai: dele vem a metade da semente que germinou para nos formar.”
“Mas ele só fez isto?”
“Sim, mas isto lhe deu muito prazer.”
“Mas então ele é um tremendo comodista!”
“À nossa mãe coube a tarefa de nos hospedar, de nos alimentar e de nos dar mais espaço para amadurecermos. Nossa presença aqui lhe causou náuseas e enjoos, a perda da sua esbelteza e até marcas indeléveis na pele do seu abdome.”
“Coitada!”
“Mas, assim mesmo ela o fez com grande satisfação, pela parte que lhe toca na perpetuação da nossa espécie e que se chama instinto maternal, isto mesmo sabendo que lá fora iremos continuar a lhe dar trabalho.”
“Você não está sentindo um aperto de vez em quando?”
“Acho que é hora de mudarmos de casa. Eu vejo você lá fora. Vá na frente. Quero que esta seja a primeira cortesia minha como varão: primeiro as damas”. Felicidades nessa viagem.”
“Para você também.”