Quando Noé foi alertado por Deus de que Ele iria punir a espécie humana, então imersa em grande devassidão, com um dilúvio, e ordenou-lhe que construísse uma arca e ali colocasse um casal de cada animal então existente, todos riram dele enquanto construía o barco no seco, chamando-o de maluco.
Esta história e o seu desfecho após quarenta dias e quarenta noites, quando aportou no Monte Ararat, na Armênia atual, é conhecida por todos nós. Somos poucos, no entanto, os que sabemos da trabalheira que aquele verdadeiro zoológico deu ao profeta, confinados que estavam em um restrito porão.
A comida era racionada, é claro, pois ele não sabia quantos dias iriam permanecer navegando.
Mesmo assim, o casal de coelhos continuou fazendo amor e, após cinco semanas, a coelha teve uma ninhada de oito coelhinhos, aumentando assim o número de bocas a consumir alimento.
O susto foi grande quando o casal de elefantes se dirigiu para um dos lados da nau e, com o seu peso, ela adernou e quase virou. Daí em diante, eles foram confinados em um cercado construído no centro da embarcação, juntamente com o casal de hipopótamos.
O par de girafas não parava de reclamar do torcicolo de que ambas foram vítimas, pois Noé não se deu conta do detalhe e construiu a nave com um pé-direito que não comportava a sua altura.
Foi quando o casal de cães, que têm faro apurado, formulou a Noé uma reclamação:
- Não sabemos mais onde ficar. De um lado temos o fedor do gambá, do outro o do bicho-frade!
Foi um corre-corre quando se descobriu que os galináceos estavam ciscando na caixa de minhocas, tentando devorá-las.
O casal de gatos passava o tempo todo observando a gaiola do par de ratos, na esperança de poder comê-los.
Uma das viúvas-negras, ao ser fertilizada por seu macho, devorou-o (daí o seu nome) para obter proteína para os futuros ovos. A sorte foi que, temendo o fato, Noé embarcou dois casais. O outro par, a partir daí, foi separado.
O casal de dragões ameaçava pôr fogo na Arca, com as labaredas que soltavam pela boca. Então Noé expulsou-os da nave. É por isso que eles já não existem mais.
Macaco e macaca não se continham e viviam na despensa roubando bananas.
Então, Noé, percebendo que a bicharada já estava ficando impaciente, resolveu promover um espetáculo teatral: o pavão e a ave-do-paraíso decoraram o palco, o que provocou algumas fofocas entre a bicharada. Duvidava-se que eles, travestidos daquele jeito, pudessem procriar. Os gansos fariam a segurança.
O primeiro a se apresentar, na modalidade de canto, foi a graúna, que foi delirantemente ovacionada. O mesmo não aconteceu com o lobo e a cigarra, pela monotonia do repertório.
Depois se apresentaram o casal de flamingos, dançando e interpretando um belíssimo bailado que viria a ser hoje O Lago dos Cisnes, ao final do qual amorosamente entrelaçaram os pescoços, nas pontas das patinhas. Foi a glória!
O desfile de modas ficou a cargo da tigresa, da zebra e da raposa com sua belíssima pele.
No concurso de máscara, destacaram-se o guaxinim e o babuíno.
Por tudo isto, foi um grande alívio quando o papagaio, lá da gávea, gritou:
- Terra à vista!
Era o Monte Ararat, majestoso, que apontava no horizonte.