Mais do que anos, Seu Candinho coleciona histórias, momentos e uma verdadeira lição de vitalidade e amor pela família
Há pessoas que não contam o tempo em anos. Contam em estradas percorridas, famílias construídas e exemplos deixados pelo caminho. É assim a história de Candido Martinho Cardoso, o seu Candinho, que aos 103 anos mantém a lucidez afiada, o amor pela vida e uma relação diária com aquilo que sempre o moveu: a família, os motores, a estrada e o trabalho.
Nascido em 1922, em Urussanga, na época conhecida como Urussanga Baixa, Candinho construiu uma trajetória marcada pela coragem e pela disposição para nunca ficar parado. Casou-se em 1947 com Maria Joaquina Constantino, com quem viveu por cerca de 50 anos e teve sete filhos: Elia, Elio, Glória, Eva, Rinaldo, Silvio e Aécio. Dessa união nasceram ainda 17 netos e 19 bisnetos, formando uma família numerosa e profundamente ligada à sua história.
Após anos morando em Tubarão, Candinho fixou residência em Laguna, onde vive até hoje. Em 2009, casou-se novamente, desta vez com Maria das Graças Emiliano, a Mila, com quem construiu uma relação de companheirismo e cuidado. Ao seu lado, ajudou a criar os filhos dela, Cláudia e Ricardo, ampliando ainda mais os laços familiares.
A paixão pela estrada nunca se perdeu. Em 2023, aos 101 anos, Candido renovou sua Carteira Nacional de Habilitação, válida até março de 2026. Ainda hoje, ele liga o carro todos os dias, coloca-o no sol e, quando pode, sai para passear por Laguna ou vai até seu “ranchinho”, onde guarda chaves, ferramentas e lembranças de uma vida inteira de trabalho.
“Ele não conta anos, ele coleciona momentos”, resume o filho Aécio, ao falar sobre o significado dos 103 anos do pai. “A idade não diz quem ele é. Não dá para medir em números, mas em histórias, lucidez, coragem e vontade de viver.”
Trabalho
Homem de muitos ofícios, Candido trabalhou como lavrador, comerciante, açougueiro, celeiro, barbeiro, mas foi como caminhoneiro autônomo que deixou sua marca mais profunda. Dirigindo o próprio caminhão, cruzou quilômetros de estradas de chão, transportando arroz, cebola, açúcar, café, milho e até ferro para a construção de Brasília, quando o país ainda erguia sua nova capital.
Filhos relatam exemplo de um pai que nunca parou nem deixou faltar nada
Para os filhos, falar de seu Candinho é falar de aprendizado diário. Rinaldo lembra das viagens do pai como caminhoneiro e das negociações que fazia pelo Sul do país.
“Ele transportava cebola, arroz, trocava por café e milho. Até hoje, quando nos reunimos, ele brinca dizendo: “Tenho pena desses meus filhos, são todos ‘bixados’”, conta, entre risos (como ele nunca sente nada de ruim referente à saúde, quando os filhos vão ao médico ele ainda caçoa da situação).
A filha Elia destaca a dignidade com que o pai sempre encarou o trabalho e a vida. “Ele sempre dizia: comer bem, dormir bem e não dever nada pra ninguém. Foi um exemplo de respeito, amizade e união familiar, sempre com as bênçãos de Deus.”
Para Glória, Candido é um verdadeiro mestre. “Ele é guerreiro, corajoso, valente. Se perguntarmos sobre coisas do passado, ele lembra de tudo. Se pedirmos conselho, ele dá uma aula.”
A rotina atual é simples, mas cheia de significado. Segundo Silvio, o pai passa os dias assistindo televisão, esperando a visita dos filhos e cuidando do carro, sua grande paixão. “Ele ainda dirige, gosta de brincar com a gente e dar risada. Com 103 anos, tem uma memória invejável e ainda se preocupa com os nossos negócios. Para mim, é um exemplo de pai.”
O filho Elio resume a essência do pai: “Ele dorme bem, come bem e passa a manhã olhando para o carro de estimação. Mexer no carro é o que ele mais gosta de fazer.”
Já Eva recorda a infância marcada pela dedicação. “Mesmo viajando muito, nunca deixou faltar nada. Sempre trazia um presentinho, como tecidos para fazer vestidos. Era caseiro, sem vícios, e sempre batalhador.”

Amor
Aos 103 anos, Candido segue sendo mais do que um centenário. É um homem que atravessou décadas sem perder o brilho nos olhos, um pai que ainda ensina sem perceber e uma história viva de que coragem, trabalho e amor pela vida não envelhecem.
A história de Candinho também é marcada pela superação. Em 2020, aos 98 anos, enfrentou a covid-19 e passou 15 dias internado. Os médicos acreditavam que ele precisaria de oxigênio e cuidados permanentes ao voltar para casa. Mas, contrariando as expectativas, no segundo dia já estava de pé, tomando café à mesa, como sempre fez. “Foi um milagre silencioso”, define Cláudia Emiliano da Silva, filha de coração. Ele me criou desde os 14 anos e me ensinou valores, respeito e força. Nem todos encontram um pai no meio do caminho. Eu encontrei.”