Câmara de Pescaria Brava é uma das que mais tem mulheres, à frente e por trás das bancadas
Presente pela primeira vez no Censo IBGE, Pescaria Brava mostra que está na vanguarda, com mulheres ocupando cargos em ambientes considerados masculinos. Emancipado em 2012, o município tem metade das secretarias da prefeitura comandadas por elas, e na Câmara, com um terço das cadeiras ocupadas por vereadoras, a mão de obra feminina já é maioria.
Celebradas neste Dia Internacional da Mulher, comemorado nesta sexta-feira, as conquistas, em pouco mais de uma década de vida da cidade, são resultado da força que as bravenses fizeram. Pioneira, Rosilene Faísca da Silva, conhecida como Léia, foi a primeira mulher a assumir como prefeita interina no município.
Ciente do momento histórico que vive, Léia lembra a surpresa que causou na segunda legislatura – ela participou de todas até agora – quando entrou como suplente, sendo a única entre os vereadores. Nas outras eleições, teve companheiras na bancada: foram duas vereadoras na primeira e três nesta. “É gratificante ter mulheres no poder trabalhando comigo. Nós vemos o mundo de outro jeito”, diz a prefeita em exercício, que faz questão de lembrar seu lema de vida, que conjuga acreditar e lutar para fazer um futuro melhor.
Margarete Martins, outra pioneira em Pescaria Brava ao eleger-se como a primeira vereadora negra do município, salienta a resiliência feminina. “Lutamos incansavelmente para ajudar a todos, mesmo nas adversidades”. Para sua colega, a também vereadora Raquel Cardoso, “se a mulher soubesse que a sua força está na sua fragilidade, dominaria o mundo”. Segundo Raquel, o fato de ter tantas preenchendo postos antes considerados somente dos homens é sinal de que a luta e a superação estão dando resultados. E não apenas na política, mas na reivindicação por igualdade de direitos como salários em todas as áreas de trabalho.
Aspectos culturais precisam ser vencidos
“No meio político, eles não dão muita importância para o que as mulheres falam”, explica Josiele da Rosa Rodrigues, para logo enfatizar que há exceções, mas que o comportamento da maioria é um reflexo da sociedade. Como exemplo, a chefe de Gabinete da Câmara de Pescaria Brava cita o dia em que conversava com um senhor que foi tratar de determinado assunto. Bastou um colega aproximar-se, por outro motivo, e o homem parou de falar com ela e passou a dirigir-se ao servidor, que tem cargo de auxiliar.
Para Josiele, o fato é indicativo de uma questão cultural ainda marcante no município, que envolve pessoas de todos os gêneros e idades, e que precisa mudar. Com experiência em fábricas têxteis, onde há muitas trabalhadoras, ela afirma que é grande o número de mulheres que pensam que há espaços com acesso permitido somente aos homens. “Falta ainda um reconhecimento geral da sociedade”, completa a contadora Danieli Aguiar, com longa experiência em empresas antes de ingressar no serviço público.
A dificuldade de homens lidarem com mulheres em postos de comando em todos os setores da economia faz com que elas tenham de lutar mais para mostrar a capacidade que têm, na opinião da advogada Rosângela Erhardt, que exerce a função de gestora de contratos. Para ela, o que ocorre em Pescaria Brava em relação à presença feminina em ambientes antes masculinos começa, aos poucos, a ocorrer também em outros municípios da região. “É muito importante esta representatividade das mulheres. Fico feliz por estarem neste espaço que antes era ocupado só por homens”, diz a assessora jurídica Manuela Pinter. Com ela e Danieli, atualmente, dos cinco convocados no primeiro concurso para trabalhar na Câmara, quatro são mulheres, mais uma prova do pioneirismo feminino no jovem município catarinense.
Do desafio à uma cadeira de vereadora
Com mestrado e duas graduações, Talita Santos decidiu concorrer para vereadora após ouvir que não receberia nem 32 votos. Talita fez 301 votos e elegeu-se após percorrer todos os bairros em uma campanha realizada apenas por mulheres: ela e mais duas amigas.
“Vai ser sempre assim! Existe um machismo velado e, sempre que uma mulher conquista algo por sua inteligência e capacidade, alguém vai questionar”, fala. Atual secretária de Educação no município, mãe de três adolescentes, ela acredita que, para a situação mudar, um dos caminhos está relacionado a mães de meninos, que precisam criá-los de maneira consciente sobre a relevância da mulher no desempenho de qualquer função que ela queira na sociedade.
E, se esta função é em cargo de poder, as chances de perpetuarem-se preconceitos são ainda maiores. Secretária da Assistência Social de Pescaria Brava, Janaina Felipe Lemos Botega foi a primeira mulher na presidência da Câmara de Vereadores. Conforme ela, em uma sociedade que nos diz todo o tempo e de todas as formas que as mulheres não pertencem ao âmbito político, não deve nos surpreender que custe ao sexo feminino mais trabalho levantar a mão para participar, militar ou disputar um cargo eletivo.
“Mulheres no poder mostram a força feminina na sociedade. É uma questão de contar com a representatividade de uma parcela da população marcada por passado de discriminações, lutas e dificuldades. Existem muitas conquistas, mas ainda é preciso mais equidade”, completa Janaina. Sobre a presença expressiva de mulheres em locais antes dominados por homens, Jane Pereira, secretária da Agricultura e Pesca, diz que a força de vontade delas e iniciativa para estar no páreo são determinantes.