O médico cardiologista Nathan Faraco, de Tubarão, usou suas redes sociais para um desabafo a respeito de sua atuação frente à pandemia de covid-19. No texto, ele diz que encerra o o seu trabalho relacionado à doença.
“Iniciamos o trabalho com um inimigo comum, o vírus. Ele infecta, te adoece e, às vezes, te mata. Uma forma diferente, um desafio no qual cada paciente nos trazia novas informações e nos fazia repensar condutas, por diversas vezes. Essa fase passou, e agora está muito claro pra nós, que tratamos os doentes, como a doença funciona, seu ciclo, seu tratamento e as formas de prevenção. Encerro meus trabalhos frente à pandemia porque nosso inimigo não é mais o vírus. É a desinformação. WhatsAppers aficcionados, políticos desesperados por atenção, profissionais mal-intencionados buscando seguidores e vendendo falsas histórias. Não escolhi minha profissão para lutar contra isso”, disse.
Nathan, que atua como cardiologista em Tubarão há dez anos, conta que ainda em fevereiro de 2020, quando a pandemia começava a dar sinais de sua chegada no país, ele e toda uma equipe de profissionais da área da saúde no Hospital Unimed começaram os trabalhos de treinamento e de estruturação para atendimento de pacientes com a covid-19.
“O lockdown ocorrido em março daquele ano foi fundamental para que ganhássemos tempo para toda a preparação no combate a esse inimigo que começávamos a conhecer”, lembra. “Como também tínhamos contato com profissionais médicos de outros países, já nos antecipamos para estarmos mais preparados para quando a pandemia chegasse ao país, como chegou”, completa.
O médico disse que desde então passou a atuar na linha de frente do combate à doença, com o auge da pandemia sendo o momento mais crítico e difícil enfrentado. “Mesmo que nossa profissão nos prepare para lidar com essas dificuldades, com a covid-19 foi muito mais difícil. Não poder oferecer a estrutura que o paciente merecia naquele momento em que a lotação nos leitos ultrapassou os limites, ver pessoas morrendo sem poder sequer ter seus familiares por perto, tudo foi estarrecedor. Mas precisávamos continuar lutando como lutamos”, conta.
Escolha é salvar vidas
Com o passar do tempo, conhecendo mais o que o vírus causava e, principalmente, com a chegada da vacina, Nathan disse que a situação começou a melhorar, no entanto a desinformação passou a ser o maior inimigo, que o levou a esse desabafo e a fazer com que ele deixasse de atuar à frente da pandemia e voltasse novamente seus trabalhos apenas na cardiologia. Ele trabalha atualmente na Provida, Hospital Unimed, Unimed e Multimed. “Me afastei dos atendimentos em pronto-socorro de covid por ver que meu trabalho estava sendo ter que convencer as pessoas do que realmente funciona, e não mais o que a profissão que abracei me permitia fazer, que é tentar salvar vidas”, pontua.
Profissionalismo continua na cardiologia
Ainda no desabafo publicado em suas redes sociais, que rendeu inúmeros compartilhamentos e apoio vindo de pessoas de todo o país, o cardiologista Nathan Faraco disse que as notícias falsas que se proliferam aos montes foram o que mais atrapalharam. “Muitas pessoas preferem deixar de acreditar em informações oficiais, dadas pela imprensa com aval de médicos e cientistas abnegados, para dar voz e compartilhar informações mentirosas e exageradas que só atrapalharam e ainda atrapalham os trabalhos de combate à pandemia”, ressalta.
“A ciência já provou por A+B que distanciamento e máscara funcionam, que medicamentos muito debatidos não funcionam, que a vacina funciona. Eis que as notícias mentirosas e exageradas continuam a atrapalhar e colocam em risco agora, a saúde das crianças”, pontuou o médico em seu desabafo.
Ele relata o que mais o decepcionou e o levou a abrir mão de algo que ele estava se dedicando com afinco desde o primeiro dia, assim como os demais profissionais da área que atuavam no combate à covid-19: “O que mais me decepciona não é o fato de ter que explicar 250 vezes por dia em diferentes canais (TV, Rádio, lives, WhatsApp, Instagram, Facebook, pessoalmente ou por ligação). O que mais me decepciona não é ser chamado de assassino da dipirona porque não prescrevo um remédio que a ciência já provou que não funciona e ninguém mais no mundo fala dele. O que mais me decepciona não é ver tanta gente morrendo dizendo ‘tomei aquele remédio e como posso ter ficado assim?’ O que mais me decepciona não é passar horas do meu dia pra cuidar de pacientes que resolveram não se vacinar. O que mais me decepciona é que todos esses que me xingam, que tomam o que não devem, que não se vacinam e que morrem fazem tudo isso porque quem deveria estar ao lado da ciência e do bem do povo não está. Quem deveria esclarecer os fatos e se preocupar com a saúde da população e dos seus não o faz”, desabafou nas redes sociais.
“Se quem deveria fazer isso tudo lava as mãos, eu cansei; peço perdão a vocês, amigos e pacientes. Minha vida profissional continua, voltada para cardiologia e apenas isso”, concluiu o cardiologista tubaronense.
Micheline Zim