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Filme tratará sobre os últimos dias do ex-reitor

28/09/2022 06:00

Foram 18 dias entre a prisão e a morte do reitor da Universidade Federal de Santa Catarina (Ufsc), o tubaronense Luiz Carlos Cancellier (Cau), em 2017. E será esse tempo justamente o nome do filme que contará sua trajetória final, com a atuação do ator global Werner Schunneman no papel do ex-reitor.


A operação Ouvidos Moucos, da Polícia Federal, estava no centro das atenções em 2017. Ela investigava casos de desvio de dinheiro público na Ufsc. Em setembro daquele ano, Cancellier foi acusado de obstruir as investigações. Menos de um mês depois, ele cometeu suicídio, após ser preso preventivamente, solto e afastado do cargo que exercia.


A direção do longa será feita por Rafael Figueiredo, que já tem o roteiro pronto – assinado pela jornalista catarinense formada pela Ufsc Cristina Gomes, esposa de Rafael. O filme é baseado no livro Recurso Final, do jornalista Paulo Markun, que cedeu os direitos para adaptação.


Segundo Rafael, o filme faz um recorte de toda a história. “Ele conta o que acontece da prisão até o suicídio, por isso o nome 18 Dias – a prisão aconteceu no dia 14 de setembro, e a morte, no dia 2 de outubro. Ele começa o filme na noite anterior da prisão para conhecer como Cancellier era, falar sobre sua vida, que era plena, tranquila, realizada, sendo reitor da universidade que ele amava – tanto que morava na frente dela –, e que de um dia para o outro tudo muda e ele é vítima de uma série de arbitrariedades”, pontua.


“A motivação para contar essa história é justamente a minha indignação. A acusação que recaía sobre ele não era de desvio de verba, era por ele ter supostamente obstruído a Justiça por tomar uma atitude perfeitamente legal, que foi um procedimento que o permitia conhecer do que o processo se tratava. E por causa disso, foi preso, algemado, acorrentado, sofreu revista íntima, ou seja, sofreu uma série de consequências, de arbitrariedades que não são nem de longe compatíveis com a suposta acusação que a ele era imputada”, destaca Rafael.


Para o diretor, esse é um capítulo muito triste da história. Também é um antecedente do que hoje é cada vez mais comum, que é a execração pública através das mídias sociais. “No dia em que ele foi preso, a Polícia Federal lançou uma nota de que a Ufsc tinha uma acusação de R$ 80 milhões de desvio de verba. No mesmo dia, eles já desmentiram. Mas como sabemos, um desmentido nunca tem a mesma força da notícia original. Então, ele foi marcado como corrupto, e isso, para ele, que sempre foi um homem muito sério e dedicado, foi algo que doeu profundamente na alma e que ele não conseguiu lidar, apesar de ter lutado bravamente nos dias subsequentes à prisão”, lamenta.



Escolha do ator

O diretor Rafael Figueiredo diz que a escolha pelo ator Werner Schunneman foi imediata, pois ele tem o perfil físico parecido com o de Luiz Carlos Cancellier “e é um excelente ator. E mais do que isso, é um cara que compreende esse tipo de filme e esse papel, e isso, para mim, como diretor, é fundamental”, reforça. As gravações ainda não têm data de início, e a equipe está em fase de estudo do personagem.



Irmão estava junto nos últimos dias de Cau

Acioli Cancellier é um dos irmãos do ex-reitor Luiz Carlos Cancellier. E foi ele quem esteve junto com o irmão nos últimos dias de vida. “Quando Rafael Figueiredo me procurou, depois de ler o livro Recurso Final, do Paulo Markun, fiquei muito emocionado, pois a ideia do Rafael de narrar os últimos dias de vida do Cau e a angústia e o sofrimento pelos quais passou seriam mais uma forma para a sociedade saber da injustiça que ele sofreu”, lembra.


Segundo Acioli, a grande expectativa com o filme é que ele possa jogar luz sobre um tema que ainda dói na família, “e acredito que jogará luz num episódio de injustiça e abuso de autoridade”, ressalta.


“Espero que o Rafael consiga depoimentos sobre a grande figura humana que foi o Cau e que ele tenha a lucidez de retratar todos os aspectos que levaram meu irmão à sua decisão final. Estive com o Cau no seu apartamento em Florianópolis nos últimos dias de vida dele. Ele estava muito abalado com as absurdas acusações que sofreu, com o inquérito conduzido pela Polícia Federal, que não apresentava provas contra ele, mas, sobretudo, abalado por ter seu nome envolvido numa falsa acusação, de ser o líder de uma organização criminosa que teria desviado R$ 80 milhões da Ufsc”, pontua Acioli.


O irmão do ex-reitor conta que nos seus últimos dias ele estava calado e um pouco depressivo. “Mas não a ponto de imaginarmos que daria cabo da sua vida. Todavia, depois da tragédia,  descobrimos que as acusações eram tão sem sentido, e a repercussão na imprensa, tão grande, que hoje entendo que ele não viu outra forma de limpar seu nome senão doando a própria vida”, avalia.


“Sob o ponto de vista da família, a dor ainda é imensa e irreparável. Já a comunidade acadêmica não se conforma de ter perdido um de seus membros mais ilustres devido a um processo sem fundamentação. Já o Estado, através de seus agentes na PF, no MP e na CGU, ainda não fez a mea culpa, pois nenhuma dessas instituições reconheceu o erro cometido contra o então reitor Cancellier”, lamenta.

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