Gilmar João Crescêncio e Eliabe Santos Cotia refletem sobre o reconhecimento como família após quase seis anos juntos
Há quase seis anos, uma conversa despretensiosa em uma festa deu início à história de Gilmar João Crescêncio e Eliabe Santos Cotia.
Moradores de Tubarão, os dois construíram uma relação baseada no diálogo, no companheirismo e na vontade de crescer juntos.
Nesta semana, completam-se 15 anos da decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que reconheceu a união homoafetiva como entidade familiar, e o casal vê a própria trajetória como reflexo da importância desse reconhecimento.
O relacionamento começou de forma simples. Depois do primeiro encontro, vieram as conversas frequentes, os passeios e a vontade de estarem cada vez mais próximos. O vínculo cresceu naturalmente, até que os dois perceberam que já faziam parte da rotina um do outro.
“A gente se conheceu em uma festa, começou a conversar, a sair junto, e, quando viu, já queria estar sempre perto um do outro. Foi tudo acontecendo aos poucos. Depois, ele acabou indo morar no mesmo prédio em que eu morava e passava mais tempo lá em casa do que no apartamento dele. A gente começou a perceber que já dividia muita coisa da vida”, conta Gilmar.
Na época, ambos moravam de aluguel e enfrentavam as dificuldades da rotina adulta, conciliando trabalho, estudos e responsabilidades financeiras. A decisão de morar junto veio tanto pela proximidade emocional quanto pela necessidade de organizar melhor a vida.
“Hoje todo mundo sabe como é difícil morar de aluguel. Então a gente decidiu morar juntos para facilitar as coisas, economizar e também porque já fazia sentido para nós. E foi aí que começamos a construir tudo juntos”, lembram.
Parceria
Com o passar do tempo, a relação foi além da convivência. O casal passou a compartilhar planos profissionais, sonhos e conquistas. Entre mudanças de rotina, faculdade e trabalho, vieram também os objetivos em comum e a construção de um lar.
“Quando a gente percebeu, já estava comprando coisas para casa, planejando o futuro e crescendo juntos. Tudo sempre foi decidido pelos dois. A gente sempre parava para pensar se aquilo fazia sentido para nós, se os dois estavam felizes e confortáveis com as decisões”, relatam.
Mesmo em meio à correria do cotidiano, Gilmar e Eliabe afirmam que preservar o tempo a dois é um dos pilares da relação. Pequenos momentos, como assistir a um filme juntos ou simplesmente conversar no fim do dia, se tornaram essenciais para fortalecer o vínculo.
“O que fortalece nossa relação é a gente tirar um tempo para nós. Às vezes não dá durante o dia, mas durante a semana a gente procura parar um pouco, conversar, ver um filme, viajar quando consegue. É uma forma de demonstrar carinho e afeto”, afirmam.

Direitos fortalecem igualdade
Ao refletirem sobre os 15 anos da decisão do STF que reconheceu a união homoafetiva no Brasil, Gilmar João Crescêncio e Eliabe Santos Cotia afirmam que o principal significado do reconhecimento está na possibilidade de viver a relação com dignidade e ter os mesmos direitos garantidos a qualquer outra família.
Para eles, embora o preconceito ainda faça parte da realidade de muitos casais LGBTQIA+, a decisão representou um passo importante para a construção de uma sociedade mais igualitária.
“Para a gente, ser reconhecido como família é poder viver nosso relacionamento sem ser julgado. O preconceito ainda existe e a gente sabe disso, mas ter os mesmos direitos faz diferença. Saber que, se um dia quisermos casar oficialmente ou até entrar em uma fila de adoção, vamos poder fazer isso como qualquer outra família”, afirmam.
O casal diz que, no início da relação, não pensavam em casamento. Com o passar do tempo, porém, a ideia de construir uma vida juntos ganhou ainda mais força.
Mais do que uma formalização, eles enxergam a família como um espaço de acolhimento, parceria e amor.
“Hoje, para a gente, ser família é estar perto de quem ama e construir uma vida juntos. Sempre colocamos nós dois em primeiro lugar, pensando no que fazia bem para a nossa relação. Acho que é isso que sustenta tudo até hoje”, concluem.
Reconhecida pelo STF em maio de 2011, a união homoafetiva garantiu direitos civis a casais do mesmo sexo em todo o país.
Quinze anos depois, histórias como a de Gilmar e Eliabe mostram que o reconhecimento jurídico também representa pertencimento, segurança e o direito de amar livremente.