J.D.S
Tubaronense
Neste artigo usarei apenas minhas iniciais para contar histórias que marcaram a minha vida. E essa escolha se faz necessário em respeito à minha família e para que este texto não traga mais sofrimento, mas esclarecimento. Episódios que ocorreram há 30 anos e outros bem atuais podem trazer reflexões sobre gênero e casamento homoafetivo.
Voltando no tempo, ainda criança, em uma época que não havia nem a discussão se o tema deveria ser tratado em sala de aula, eu fui uma vítima da falta de conhecimento e de um homem mais velho, pedófilo e perseguidor. Sempre que ia para a escola, ele me observava sem que eu percebesse. Eu, um menino de 11 para 12 anos.
Descobri que ele me observava quando passou a ter coragem de me abordar. Ele dizia que sabia que eu gostava de garotos. Eu nem sabia ao certo como era isso, mas sabia que tinha algo diferente em mim. Ainda tentava entender o que eu sentia e aquilo me amedrontou. Ele tinha me descoberto antes mesmo que eu me entendesse. Certo dia, decidido a acabar com aquilo, empostei a voz e gritei que chamaria minha mãe. Ele, prontamente, respondeu que eu deveria fazer aquilo e ele aproveitaria para contar tudo a ela.
Acuado, entrei naquele carro e cedi por alguns anos aos desejos dele. Só consegui me livrar daquilo quando aprendi sobre meus direitos, quando me conheci, já na faculdade. Lá, o assunto era tratado abertamente. Discutir gênero não é uma imposição a uma orientação sexual, é contribuir na desnaturalização das desigualdades entre homens e mulheres e na construção de uma cultura sem violência e ódio. É conhecimento. Ou será melhor deixar que crianças desconheçam a realidade e sejam vítimas de homens de família? Sim, ele era casado e de uma família tradicionalmente religiosa.
Depois de todos esses anos, o assunto voltou à mente após me deparar com novas discussões sobre um projeto de lei que tenta proibir a união homoafetiva. A autoria é de um pastor do PL. Por que se incomodar tanto com casais que estão juntos, construindo uma verdadeira família, enquanto outros, de formação tradicional, agem na surdina e cometem crimes?
E não se trata de caso isolado. Eu mesmo conheci outros meninos vítimas desses pedófilos, que para a sociedade se apresentam como homens de família. Além desses, há inúmeros outros homens casados em aplicativos de paquera, voltados ao público LGBTQIAP+, buscando encontros no “sigilo”. O número é tão grandioso que gera reclamação até mesmo entre os gays. São homens que mantêm casamento com mulheres, fingem para si mesmos que são héteros, mas estão no aplicativo buscando outros homens.
Não dá para entender o motivo de um casamento homoafetivo incomodar mais do que um pedófilo que se aproveita da falta de informação, mais do que jovens héteros realizando atos pornográficos durante jogos, homens se tocando diante de mulheres dentro de ônibus, esposas sendo agredidas dentro do lar e crianças abandonadas pelos próprios pais. Nenhum desses assuntos ganha tamanho empenho dessa ala que luta tanto pela família.
O gay que sonha em formar uma família e ser feliz, como qualquer outra pessoa, só quer compartilhar amor e o seu próprio direito. Ele não quer, jamais, ser o “hétero” sigiloso de aplicativo, o pedófilo pai de família e nem o boçal que exibe seus órgãos diante das mulheres como se aquilo o fizesse superior.