Quinta-feira, 12 de março de 2026
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Artigo: O que fica de um professor

Por Lester Marcantonio Camargo | Professor do curso de Direito da UniSul

12/03/2026 06:00|Por Redação

Há alguns dias, recebi uma mensagem de um ex-aluno. Ele dizia que, anos atrás, durante as aulas de Teoria Geral do Processo, teve a certeza de que queria ser professor. E se tornou um. Ao recordar aquele tempo, escreveu para agradecer.

Confesso: poucas coisas têm a força silenciosa de uma mensagem assim.

Quem vive a docência por muito tempo aprende que o resultado do nosso trabalho quase nunca é imediato. Não é como erguer um prédio, concluir um processo ou fechar um contrato. O professor trabalha no invisível, na formação de estruturas internas: pensamento, método, postura, rigor. E raramente sabe o que floresceu.

Ao longo de mais de vinte e cinco anos em sala de aula, lecionei disciplinas técnicas e densas: Teoria Geral do Processo, Processo Civil em suas múltiplas fases, Estágio supervisionado e Contratos. Sempre acreditei que o Direito precisa ser ensinado com seriedade intelectual, mas também com honestidade humana. 

O aluno não precisa apenas aprender normas; precisa aprender a pensar e desenvolver senso crítico. Longe de ser dono da verdade, imagino que talvez esse seja o verdadeiro ofício do professor: ensinar a pensar com responsabilidade.

A vida profissional me levou por diferentes caminhos: advocacia, gestão acadêmica, funções administrativas e desafios institucionais. Todas essas experiências ampliaram minha compreensão do Direito e das organizações. Contudo, afirmo sem hesitação: entre todas as funções que exerci, a docência é a que mais me trouxe reconhecimento genuíno e satisfação pessoal. É na sala de aula que encontro o sentido mais profundo do que faço.

A sala de aula sempre foi o ponto de origem. É ali que a teoria encontra a inquietação de quem está começando. É ali que o Direito deixa de ser apenas um código e passa a ser uma forma de compreender o mundo. O professor não forma cópias. Ele provoca despertares.

Muitas vezes, aquilo que para nós foi apenas mais uma aula, para alguém, deixou marcas. Quando um ex-aluno se torna advogado ético, pesquisador comprometido ou professor dedicado, não está reproduzindo quem fomos. Está construindo a própria identidade.

Ensinar é, no fundo, um ato de esperança. Talvez hoje isso seja ainda mais necessário. Vivemos um tempo de desconfiança nas instituições, inclusive no Poder Judiciário. Decisões das altas cortes, especialmente do Supremo Tribunal Federal, frequentemente ocupam o centro do debate público e levantam questionamentos sobre segurança jurídica, previsibilidade e limites institucionais.

 

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Nesse cenário, ensinar Direito torna-se ainda mais relevante. Formar juristas críticos, equilibrados e comprometidos com a Constituição é uma forma concreta de fortalecer a democracia. A crítica institucional é legítima, mas deve vir acompanhada de responsabilidade, estudo e compromisso com o aprimoramento das instituições.

Ensinar é acreditar que as próximas gerações podem exercer o Direito com mais serenidade, mais técnica e mais compromisso institucional do que vemos em muitos debates públicos. Quando um ex-aluno escreve dizendo que se inspirou, o que sentimos não é orgulho. É gratidão. Gratidão por ter participado de um trecho da caminhada de alguém.

Talvez seja isso que fique de um professor: não os títulos, nem os cargos, mas as marcas discretas que ajudam outros a encontrar o próprio caminho. Se alguma aula despertou vocações, então a missão fez sentido.

E seguimos.

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