Felipe Felisbino | Professor
O fim do ano é um espelho. Entre confraternizações e votos de boas festas, emerge uma pergunta silenciosa e persistente: o que fizemos, de fato, com o tempo que nos foi dado? Dezembro impõe uma contabilidade ética, moral e profundamente pessoal, refletindo sobre o conforto que não é paz, é anestesia. Não se trata do descanso legítimo de quem escolheu com consciência, mas da quietude artificial de quem evitou sentir. É confortável não se manifestar, não se envolver, não tomar posição. Muitas vezes, esse silêncio não nasce da prudência, mas do medo de perder pertencimento. Prefere-se ser aceito a ser coerente. Prefere-se atravessar o ano sem atritos a atravessá-lo com integridade.
Na metáfora da feijoada, a galinha se envolve oferecendo o ovo; o porco se compromete oferecendo a própria carne. O problema não está em se envolver ou se comprometer, ambos são necessários à vida coletiva, mas em fazê-lo sem consciência. Ao longo do ano, muitos aderem a discursos, causas e decisões sem avaliação profunda. Caminham por adesão, não por convicção. Quando incoerências são apontadas, seguem adiante como se nada tivesse acontecido, com cara de paisagem. A consciência é terceirizada ao grupo, ao líder, à narrativa dominante.
Há também os que não deixam rastros visíveis. Não assinam, não se posicionam, não confrontam. Permanecem sempre de bem com todos. Mas entre eles estão aqueles que atuam nos bastidores, orientam, instigam, inflamam conflitos, colocam álcool na fogueira sem jamais aparecer com o fósforo. Empurram o outro para o abismo enquanto preservam as próprias “mãos limpas”. Exercem influência sem assumir consequências.
Esse silêncio não é neutro. Sustenta incoerências, legitima vazios e posterga responsabilidades que deveriam ser enfrentadas com maturidade. A consciência cobra seu preço, exige renúncia, exposição e, por vezes, solidão. Mas o vazio também cobra, geralmente mais tarde, quando já não há discurso capaz de sustentar a aparência. O Natal fala de nascimento, mas também de Verdade. Toda promessa de recomeço exige responsabilidade. Ao fechar o ano, a pergunta não é apenas o que fizemos, mas como fizemos, com consciência ou conveniência, com coragem ou cálculo, oferecendo algo da própria carne ou apenas ovos simbólicos.
O tempo não se comove com boas intenções nem com silêncios confortáveis. Ele registra escolhas. O tempo, nesse sentido, funciona como um Evangelho laico, não julga palavras, mas frutos. E, ao virar o calendário, devolve a todos a mesma cobrança, o ano novo não deveria nos encontrar apenas falando bonito e com cautela, mas assumindo responsabilidades reais pelas escolhas que fazemos, inclusive pelas que evitamos fazer.