Terça-feira, 03 de março de 2026
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Artigo: Futuros em risco

Por Felipe Felisbino | Professor

03/03/2026 06:00|Atualizada em 03/03/2026 08:00|Por Felipe Felisbino | Professor

A evasão escolar cresce enquanto os currículos ainda não respondem ao século 21. O Censo Escolar revelou um alerta: o Brasil perdeu cerca de um milhão de matrículas na educação básica em um ano. O ensino médio, etapa decisiva para a formação dos jovens, registra agora o menor número de estudantes do século. 

Parte da redução das matrículas decorre de mudanças demográficas e de ajustes no fluxo escolar, conforme indicado pelo próprio Inep. Ainda assim, a magnitude da queda exige atenção, pois seus efeitos educacionais e sociais ultrapassam a explicação demográfica e demandam monitoramento contínuo das trajetórias escolares.

Durante décadas, o principal desafio educacional brasileiro foi garantir acesso à escola. Hoje, o problema mudou de natureza: os estudantes entram, mas muitos já não permanecem, ou permanecem sem vínculo real com o processo educativo, uma crise silenciosa de sentido. Parte da juventude não enxerga na escola um caminho claro de futuro, mobilidade social ou realização pessoal. Quando isso acontece, a evasão deixa de ser apenas um problema educacional e passa a expressar um desalinhamento entre políticas públicas, currículo e expectativas sociais.

Santa Catarina apresenta números mais estáveis que a média nacional, mantendo aproximadamente 1,7 milhão de matrículas na educação básica. Ainda assim, o Estado não está imune à tendência. Sociedades com melhores indicadores educacionais costumam perceber primeiro os efeitos das transformações demográficas, tecnológicas e econômicas que redefinem trajetórias juvenis.

Há, porém, um elemento estrutural frequentemente evitado: o currículo escolar. Os currículos ainda praticados permanecem, em grande medida, pouco atraentes para os estudantes e insuficientemente conectados às competências e desafios do século 21. A organização curricular consolidada ao longo do tempo estruturou um modelo marcado pela fragmentação do conhecimento, pelo excesso de conteúdos prescritos e por uma racionalidade pedagógica que, muitas vezes, afastou a dimensão humana da aprendizagem. Nesse contexto, ganham relevância as futuras adequações previstas para a Base Nacional Comum Curricular, cuja revisão representa oportunidade para reequilibrar aprendizagens, tornar o currículo mais significativo e aproximá-lo das trajetórias reais dos estudantes.

 

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O jovem de hoje vive em uma realidade acelerada, digital e orientada por projetos de vida imediatos. A escola, entretanto, ainda opera, em muitos casos, sob lógicas concebidas para o século passado. Esse desencontro produz afastamento gradual, não necessariamente abandono brusco, mas desengajamento progressivo.

Para Santa Catarina, os dados nacionais funcionam como aviso antecipado. Ignorar o sinal agora significaria transformar um alerta estatístico em problema estrutural no futuro próximo, haja vista que, quando estudantes começam a desaparecer das matrículas, não está em risco apenas a escola, mas o próprio projeto de sociedade que decidimos construir.

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